Crítica | Festival

Two Sisters and a Husband

Dramalhão raiz

(Two Sisters and a Husband, IND, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Shlok Sharma
  • Roteiro: Shlok Sharmaand, Shilpa Srivastava
  • Elenco: Avani Rai, Dinker Sharma, Manya Grover, Himanshu Kohli, Ashutosh Pathak
  • Duração: 104 minutos

É melodrama que você quer? Eis que surge Two Sisters and a Husband. Com a trama rodrigueana dos mais conturbados folhetins, o filme indiano fala de amor impossível, traição, dor e desespero nas montanhas do Himalaia. Indo e voltando no tempo, conhecemos a história de um casal apaixonado, Amrita e Rajat, e de uma jovem, Tara, que deixa tudo para cuidar do pai doente. Acontece que Rajat e Tara precisam se casar, e Amrita, irmã da segunda, está grávida do primeiro. É quando todos se mudam para o Himalaia para cuidar de um hotel.

Assuntos tabu continuam marcando a filmografia do diretor Shlok Sharma, que em seu último filme, Haraamkhor, contava a história do envolvimento de um professor bem mais velho com uma aluna menor de idade. Mais uma vez, há um afastamento que busca apenas observar os personagens, não julgando-os por seus atos e escolhas, porém, mais uma vez, não há escapatória para os fatos e para o moralismo que eventualmente se apresenta.

Mas é uma jornada interessante essa de Two Sisters and a Husband, um filme certamente mais equilibrado do que o anterior, feito com mais calma e elaboração. A não-linearidade é benéfica à trama e dá tempo a cada um dos personagens. Amrita, vivida por Manya Grover, além de ter o seu amadurecimento em tela, atinge extremos de emoção de forma muito convincente na melhor atuação do trio. Seus parceiros de cena, Dinker Sharma e a estreante Avani Rai, ainda que menos impactantes, também têm bons momentos. E estão inseridos em uma rede de interessantes personagens satélites que o roteiro, assinado pelo próprio Sharma em parceria com sua colaboradora de longa data Shilpa Srivastava (que está envolvida em títulos famosos, como Gangues de Wasseypur e Bombay Velvet), faz questão de costurar.

Apoie o Cenas

O cuidado com a atmosfera também faz a diferença. Além dos muitos silêncios, o diretor deixa que os sentimentos guiem a fotografia, assinada por Arjun Mitra. Enquanto a luz transborda nos primeiros encontros de Amrita e Rajat, a escuridão toma conta das cenas em que Tara vai se despedindo aos poucos de seu pai. Do mesmo modo, não há interesse nas belas paisagens do Himalaia, ainda que elas estejam ali emoldurando a nova vida do trio; ou mesmo que a decoração do hotel seja foco de admiração, o que fica para quem assiste ao filme é a impessoalidade e o frio de algo que não pode acontecer.

Porém, se há acertos na impressão dos sentimentos, há excessos não tão benéficos ao filme. Prolongamentos e repetições tornam algumas das passagens maçantes e fazem a jornada parecer maior e alguns de seus personagens menos interessantes. Aquele ar de novelão que ultrapassa o enredo, cheio de elementos a que estamos muito familiarizados pela larga exposição cotidiana ao melodrama na teledramaturgia — mas não que aqui seja algo que afaste o cinema –, como a trilha sonora muito presente e a determinação por núcleos, também pode incomodar.

Two Sisters and a Husband tem marcas características da cinematografia a que pertence, mas vem recheado de referências que a transcendem. É um filme que traz outros diretores indianos e, para além disso, demonstra o amadurecimento do cinema de Sharma, Um título realmente interessado em observar as pessoas e contar suas histórias, por mais que as recheie de conflitos e absurdos, ainda que exagere nas cores e no drama. Há tempo e cuidado para que tudo esteja no lugar certo e chegue ao espectador, porque pode até parecer que sim, mas fazer melodrama e contar histórias rocambolescas como essa não é fácil. E, aqui, com tempo e calma, Shlok Sharma consegue chegar lá.

Um grande momento
“Quando eu os vi juntos pela primeira vez…”

[Tribeca Film Festival 2022]

Curte as coberturas do Cenas? Apoie o site!

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
Botão Voltar ao topo