Crítica | Cinema

Um Casal Inseparável

Iguaria confortável

(Um Casal Inseparável, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Comédia, romance
  • Direção: Sérgio Goldenberg
  • Roteiro: Sérgio Goldenberg, George Moura, Laura Rissin
  • Elenco: Nathalia Dill, Stepan Nercessian, Danni Suzuki, Marcos Veras, Esther Dias, Totia Meireles, Carlos Bonow, Cláudio Amado, Cridemar Aquino, Junno Andrade
  • Duração: 98 minutos

De cara ao assistir a Um Casal Inseparável, bate uma saudade do cineasta Sergio Goldenberg. Nos separam 16 anos do lançamento de Bendito Fruto, seu único outro longa, e tendo migrado para TV como prestigiado autor de novelas e minisséries (dentre as quais, Onde Nascem os Fortes, Onde está meu Coração e o remake de O Rebu), sentia cada vez menor a possibilidade de voltar a encontrá-lo na telona. Essa estreia aplaca a falta que ele fez como cronista de um Rio de Janeiro contemporâneo sem filtros, repleto de verdades no seu olhar para as relações humanas do presente, e as dificuldades provenientes do trato com o outro, as idiossincrasias nascidas do dia a dia.

Uma comédia romântica jovem cheia de charme e com grande potencial de abraço público irrestrito, infelizmente o filme chegará ao nosso circuito ainda combalido e tentando se erguer por conta da pandemia Covid-19, que reduziu as expectativas dos números nacionais. Mas, sozinho, o longa não encontra restrições ao contar sua história, ainda que seu desenvolvimento esbarre em clichês esperados do filão; quem cresceu ao lado de Meg Ryan, Sandra Bullock e Julia Roberts, sabe o que nos aguarda o roteiro da produção, que ainda assim consegue uma cumplicidade junto ao espectador, talvez graças a brasilidade com a qual seus personagens abracem.

Um Casal Inseparável
© Rachel Tanugi

Acho que tem uma chave que é acionada quando vemos grandes atores como Stepan Nercessian e Totia Meireles defendendo bons diálogos e interagindo com outros atores em português, por mais que seus caminhos sejam de fácil previsão. Metade da atração que nós sentimos por Um Casal Inseparável vem sim do fato de que raramente uma produção feita de maneira industrial assim, em seus acertos e erros mas principalmente em seu padrão de qualidade, é nossa; que seus valores de produção estejam dentro de um quadro elevado de aceitação, só faz o produto crescer e alcançar o carinho de quem resolver conferir o resultado.

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No centro da trama, Nathalia Dill (de Paraísos Artificiais) e Marcos Veras (de O Filho Eterno) compram o astral de seus personagens e entregam o que se espera de um casal central de um romance – muita química, seus talentos equilibrados dentro do que o gênero propõe, e veracidade para compreender o universo onde estão inseridos e seus contextos particulares. Dill é o símbolo da mulher moderna desde a cena de abertura meio exagerada, em seu lugar de comando da própria feminilidade; Veras é o típico homem hétero pro bem e pro mal, o cara de quem desconfiamos facilmente, mas cujo poder de sedução sempre nos deixa na dúvida sobre suas intenções reais.

Um Casal Inseparável
© Rachel Tanugi

O filme conta com George Moura no roteiro ao lado de Sergio, exatamente o parceiro de suas produções nos últimos 10 anos. Ao contrário do que tem feito na televisão em produções corajosas, ousadas e até precursoras em alguns momentos, Um Casal Inseparável é um filme amansado em suas intenções, que são alcançar o entendimento e a empatia do maior número de pessoas possível, diria até um filme confortável. Diante do quadro que se encontra a carreira dos roteiristas parece um passo atrás, mas quando percebemos que o cinema atual não abriga muitos filmes tão assertivos e diretos assim, a produção ganha um verniz saudável.

É uma história de amor com encontros e desencontros, com dois protagonistas tão diferentes quanto uma esportista e um médico em seus lugares de liberdade e comprometimento, que flerta com o discurso progressista literalmente do início ao fim, o que acaba fazendo de Um Casal Inseparável um filme do nosso tempo. Ainda que seu lugar seja aquele do não-incômodo, o que também reflete no gosto do público final, que não quer ser desafiado a não ser de maneira social e discursiva; na narrativa, o filme acredita no espectador médio, e ele estará certo ao falar com esse público.

Nota: 2.5

Um grande momento
Leo e Manu se reencontram, porta a porta

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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