Crítica | Cinema

Uma Mulher do Mundo

Selva urbana

(Une Femme du Monde, FRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Cécile Ducrocq
  • Roteiro: Cécile Ducrocq, Stéphane Demoustier, Jacques Akchoti
  • Elenco: Laure Calamy, Nissim Renard, Béatrice Facquer, Sam Louwyck, Maxence Tual, Diana Korudzhiyska, Amlan Larcher, Valentina Papic, Romain Brau
  • Duração: 95 minutos

Se o leitor ainda não começou a prestar atenção, comece nesse momento a não tirar mais os olhos de Laure Calamy. Surgida para o grande público graças ao sucesso da série Dix Pour Cent, a atriz ganhou um inesperado César (o Oscar francês) no ano passado, por Minhas Férias com Patrick, uma ‘dramédia’ romântica até ligeiramente existencialista. Naquela altura, o talento da atriz já estava tão evidente que essa vitória em um gênero que não costuma ser abraçado por nenhum tipo de premiação foi encarada como merecida e consagradora. Um ano depois ela seria novamente indicada, por esse Uma Mulher do Mundo que está chegando aos nossos cinemas agora, e é mais um acerto consecutivo de uma atriz intrigante e surpreendente. 

É sua presença, sua força cênica, seu frescor de intérprete, sua disponibilidade e destemor, que ressignificam os lugares onde ela se insere, e isso aqui em Uma Mulher do Mundo é amplificado. O filme conta a história de uma prostituta consciente de sua condição que está na profissão como se estivesse em qualquer outra. Dedicada, empenhada, com uma rara consciência de classe, Marie (a tal primeira mulher do mundo, lembram-se?) se divide entre brigar por seus direitos trabalhistas – sim! – e direcionar o filho, que acaba de ‘escorregar’ na delinquência mesmo tendo inúmeros talentos. Começa então a viver uma via crúcis em busca de um lugar social que impeça Adrien de cair na mesma vala comum que ela caiu. 

Uma Mulher do Mundo
Divulgação

Quando eu falo em via crúcis, leia-se da maneira mais cotidiana possível. A verdade é que Marie enfrentará os males banais que nós estamos diante diariamente, principalmente uma esfera de burocracia que vai além do que já conhecemos como tal. Em todos os lugares, Uma Mulher do Mundo sugere uma sociedade impelindo o indivíduo ao conforto, ainda que no desvio de conduta. O ‘modus operandi’ que nos cerca cria tantos empecilhos para que possamos ser alguém, que a propensão a desistência é diário. Cécile Ducrocq está em seu primeiro longa-metragem solo e demonstra confiança em seu roteiro e no que pretende dizer em cena, uma narrativa onde o naturalismo nos conecta àqueles personagens vivendo coisas muito palpáveis. 

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Olhando de maneira menos viciada, Uma Mulher do Mundo não é sobre prostituição, nem sobre feminismo, ou ainda mesmo sobre pessoas e famílias disfuncionais – não que também não seja sobre isso tudo, ainda que em menor grau. O percurso narrativo aqui nos tendenciona a olhar para o trabalho e suas condições desumanas, a dificuldade de se manter no mercado depois de certa idade e sem ter as alças certas, sobre oportunidades perdidas muitas vezes por não estar na casta social correta. É um processo ainda mais ambicioso, que aproxima o filme dos grandes dramas sociais, seja de Ken Loach ou dos irmãos Dardenne, em seus melhores momentos. E também é como se fôssemos cada vez mais profundamente na direção de caminhos sem volta, e em definitivo; estamos longe do conto de fadas aqui. 

Uma Mulher do Mundo
Divulgação

Toda essa energia social carrega em Uma Mulher do Mundo as mesmas tintas que o outro título protagonizado por Calamy a estrear mês passado, Contratempos. Enquanto o anterior mostrava uma semana insana na vida de uma mulher que decaiu no espaço do trabalho e agora literalmente corre contra o tempo para a recolocação, aqui Marie pretende cortar a hereditariedade rumo à derrota social. São dois filmes onde a energia trabalhista é toda a mola propulsora do giro que suas protagonistas fazem, com o intuito de mudar sua relação com o futuro que a sociedade lhe diz ser o mais próximo que chegará do sucesso. Aqui, em dinâmica menos acelerada, a ambição da protagonista é mudar não a própria realidade, mas o legado que deixará para trás. 

Nesse sentido, tudo é complementar entre os projetos, principalmente o trabalho de sua atriz central. Calamy compreende essas duas mulheres como sendo visões conectadas de uma mesma figura feminina, moderna e ao mesmo tempo condenada. Tendo uma trajetória acidentada para impedir os tombos que o filho desesperançoso insiste em tomar, Marie reage com naturalidade ao que outros viriam de maneira envergonhada. Uma Mulher do Mundo é um improvável ato político e feminista, que nunca deixa de abraçar as possibilidades dentro do que é concreto, e não do abstrato. Por mais que haja o sonho, a protagonista e seu filho só lidam com a realidade, e com as contingências de um dia a dia na selva – a caçada é injusta e inclemente, e o mais fraco será engolido na maior parte das vezes, inclusive por si mesmo.

Um grande momento

Ladra!

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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