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Undine

Lendas da Paixão

(Undine, ALE, FRA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Fantasia
  • Direção: Christian Petzold
  • Roteiro: Christian Petzold
  • Elenco: Paula Beer, Franz Rogowski, Maryam Zaree, Jacob Matschenz, Anne Ratte-Polle, Rafael Stachowiak, José Barros, Julia Franz Richter
  • Duração: 91 minutos

Se a chave do brilhantismo é algo subjetivo para avaliar um autor, a curiosidade diante da progressão da carreira de Christian Petzold é para avaliarmos o rumo das narrativas que ele escolhe contemplar em sua obra. De três longas com apontamentos histórico-sociais, com histórias de amor (por que não?) no cerne de suas questões, ele não delimita seu universo a uma prerrogativa única e específica, mas a estreia do novo ‘Undine’ faz esse recorte narrativo que o diretor alemão se propõe ganhar mais um elo. Essa unidade que transcorre de uma produção a outra, sempre observando esteticamente o espaço cênico pela linha de uma Alemanha fantasmagórica no passado e no presente, aqui encontra ares de fábula ao desenhar a história de uma cidade às lendas que dela nasceram.

Transcorrendo sua filmografia com uma observação sobre a História alemã e suas sombras, seu passado sem orgulho, escarafunchando sobre erros e o que legou à sociedade tais deslizes, Petzold transcorre, de ‘Em Trânsito’ a seu mais novo longa, uma linha de estrutura onírica, que se insere no campo da ação, mas principalmente no da imaginação. Suas roupagens possibilitam ao espectador correr pela sinuosidade narrativa com a liberdade de poder criar novas curvas independentes da sinalização do roteiro. Mas se em seu filme anterior uma ideia de historicidade ainda perpassava os quadros, através de um deslocamento imagético da realidade, aqui o diretor se deixa evadir do naturalismo para o sonho.

Petzold conecta sua personagem-título às duas pontas da régua, a histórica e a fabular. Undine é guia para o público de sua própria jornada, indo do naturalismo nas suas relações e na realidade como museóloga até a sua porção fantástica, que desabrocha com parcimônia até contaminar todos os cantos do roteiro e da realização. Ela é uma força diminuta, que se esgueira pelos espaços com sutileza porém repleta de segurança – por isso, considera-se normal que sua presença se faça notar e arrebanhe paixões indiscriminadas. Ela é o concreto, com sua atitude determinada (“se você me deixar, serei obrigada a matar você”), e também o etéreo, que seduz com um canto de sereia dos mais singelos.

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Undine
IFC Films

O filme se insere numa seara do romantismo extremo, dividido entre o amor e a paixão, tão perene de um lado quanto arrebatador do outro. É muito salutar que um filme do chamado ‘cinema de autor’ dê as boas-vindas a sentimentos tão prosaicos quanto os que se desenvolvem dentro de uma esfera da carnalidade. Não é um lugar habitável pelo autorismo comumente, mas Petzold em particular têm dado ao desejo uma conotação amplamente política ao rascunhar suas motivações dentro de um escopo político. Aqui, por mais que investiguemos as entranhas da formação arquitetônica alemã e encontremos o gatilho para justificar o surgimento de seres fantásticos que caminham entre nós pela natureza do tempo, é o amor romântico em sua face mais desbragada que justifica os personagens.

Os encontros de Undine em cena, primeiro demarcado pelo fim de uma história e em seguida pelo início de outra, sedimentam uma trajetória onde a fantasia encontra o respaldo emocional para se fazer existir. Poucas vezes recentemente a linguagem corporal falou tanto em cena, e isso é uma característica marcante que é particular de Petzold; a intensidade de seu cinema também é expressa pelo modo como os corpos de seus atores são dispostos em cena, e posteriormente filmados, com as marcações sempre induzindo ao explícito tátil. Parte da conexão do público é colocada na conta do trabalho conjunto desses profissionais para tornar crível a intensidade de suas emoções e a verdade desse lugar de entrega.

O trabalho de Paula Beer e Franz Rogowski é crucial, então, para realizar a real magia por trás de ‘Undine’, que é a crença de algo tão arrebatador que há espaço para o impossível transcender. Christian Petzold acredita na força do que conta, e para provar tal intento, ele subverte o realismo com ressurreição, com contato extra-corpóreo, com a ilusão de uma vida submersa; nada é pecado, nem habita o improvável. O diretor alemão, tão visceral na sentimentalidade que transcreve, rasga o bom gosto pra dizer que o amor verdadeiro não prende – deixa ir. Do alto de um pedestal do bom gosto, o autor por trás de ‘Barbara’ e ‘Phoenix’ desce despido, para conclamar de maneira muito refinada uma toada de pura sofrência.

Um grande momento
O aquário (mas poderiam ser uns outros 4)

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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