Crítica | Streaming

Victoria e Mistério

Um presente da floresta

(Mystère, FRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Denis Imbert
  • Roteiro: Denis Imbert, Mathieu Oullion, Rémi Sappe, Stéphanie Vasseur
  • Elenco: Vincent Elbaz, Shanna Keil, Marie Gillain, Eric Elmosnino, Tchéky Karyo, Eric Savin, Romain Lancry, Vincent Deniard, Ezio Sutter
  • Duração: 84 minutos

Nessa véspera de Natal, a Netflix disponibiliza um longa desses pra toda família se emocionar juntos sem contra-indicação, suspirando e cheio de bons sentimentos. ‘Victoria e Mistério’, produção francesa daquelas que poderíamos chamar de inofensiva, mas com abundância de boas intenções, que não tem uma elaboração muito complexa de suas questões, mas cuja vontade é apenas entreter com temas e imagens que já vimos anteriormente em tantos filmes, mas que aqui são recompensados pela fofura de sua protagonista e pelo afeto que consegue transmitir, e que nessa época do ano soa ainda mais relevante.

Vivida por Sky Alexis, a personagem-título humana do filme, Victoria é uma deliciosa surpresa para um filme tão básico, que repete elementos de tantas produções já passadas. A presença da atriz ilumina o produto desde sua primeira cena, quando ainda está introspectiva e em processo de luto. Conforme avança, o carisma da pequena atriz se agiganta e, ao lado do lobinho que faz as vezes de cachorro, ambos são os responsáveis por dar ao título o sabor que o coloca como uma produção que merece ser vista, ao lado de familiares que provavelmente terminarão a sessão em lágrimas.

Vitória e Mistério
Eric Travers

O diretor Denis Imbert está em sua segunda incursão em longas, e não tenta inventar a roda em nenhum momento, apostando nas emoções fáceis porém não gratuitas. Com o cenário ideal para provocar uma visão idílica da vida na infância, o filme não foge dos problemas, mas tenta diminuir o peso deles no olhar da criança, que acabou de perder a mãe e não vê sentido ao seu redor. Seu pai igualmente deprimido (vivido por Vincent Elbaz) tenta resgatar para a menina uma vida de possibilidades ao largo desse sentimento de perda, e com isso incorre em algumas irresponsabilidades, mas o filme também trata isso com graça e leveza.

Apoie o Cenas

Como trata-se de uma produção infanto juvenil com ambições de arrastar também pais e mães (e avós, e tias…) para frente do streaming, todas as suas possíveis problematizações, e alguma seriedade, ou implicações depressivas mais graves, são todas atenuadas pela tentativa de amenizar um ambiente tranquilo, sem maiores traumas para os envolvidos. A própria atmosfera do filme é repleta de tranquilidade, como se os conflitos tivessem acontecido antes do que estamos vendo. Se isso garante ao filme uma “censura livre”, também tira dele alguns questionamentos acerca de sua própria narrativa.

Victoria e Mistério
Eric Travers

O protagonista adulto, ao contrário do que seria esperado, não se recupera com um “novo amor” – e isso significa que ele serve apenas como suporte para a criança. Já a pequena talentosa Alexis, se vale do amor que sente pelo animal selvagem adotado; seu conflito se resume a isso, além de descobrir que o cachorrinho que abriga na verdade é um lobo selvagem, cuja espécie vem matando as ovelhas da região. Ah tá aí, um conflito… não: tirando uns tiros disparados que não matam ninguém (nem animais) e um tapa na cara que não gera nenhuma consequência, o filme também abre mão desse conflito muito óbvio.

Ah, podemos dizer que ‘Victoria e Mistério’ abre mão dos clichês que estariam em todas essas cenas que tradicionalmente infestam as produções do gênero. Mas ao abrir mão delas o filme perde senso de urgência, parecendo uma sucessão de eterna irrelevância pela parte do roteiro e da vida dessas pessoas. Em tempo: rever a sumida Marie Gillain, protagonista nos anos 1990 do suspense ‘A Isca’ de Bertrand Tavernier, é um aperitivo para os adultos, esse sim que criança alguma conseguirá alcançar.

Um grande momento
O primeiro encontro entre os protagonistas

Curte as críticas do Cenas? Apoie o site!

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
Botão Voltar ao topo