Crítica | Streaming

Não Olhe para Cima

Caos até o fim

(Don't Look Up, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Adam McKay
  • Roteiro: Adam McKay, David Sirota
  • Elenco: Leonardo DiCaprio, Jennifer Lawrence, Meryl Streep, Cate Blanchett, Rob Morgan, Jonah Hill, Mark Rylance, Tyler Perry, Timothée Chalamet, Ron Perlman, Ariana Grande
  • Duração: 138 minutos

Existe uma nostalgia em assistir algo do porte de ‘Não Olhe para Cima’, e essa análise não foi feita sozinha, mas em um debate exatamente pós sessão com um de meus grandes amigos. Esse filme que a Netflix está colocando no ar hoje, essa produção megalomaníaca deles, uma das maiores de seu acervo, é um filme fadado ao fim. Os últimos meses mostrou fracassos colossais de diversas fatias de produto, todas destinadas ao mesmo público, o adulto; um filme original, sem ser adaptado de nenhuma HQ, de nenhum livro best seller juvenil, continuada de coisa nenhuma, sem apelo pop jovem aparente, esse filme, pois é… esse filme está com os dias contados.

Ironia das ironias, esse é também um filme sobre o fim do mundo – ou sobre o fim de um mundo, um mundo possível que já não atura mais nada, principalmente a polarização em todas as áreas. Esse mundo preferirá morrer, em algum momento, porque a extinção será bem-vinda na frente de aturar inúmeras categorias de pessoas, então que morramos. Ou, a quem interessar, procurar um novo mundo, cá ou lá. Um mundo habitável no exterior ou no interior, e é sobre isso que alguma emoção é provocada pela última imagem de um ator/atriz, logo aquele que é tão atacado desde o início por um desequilíbrio absolutamente compreensível; enfim, a paz.

Não Olhe para Cima
Niko Tavernise/NetflixETFLIX

Adam McKay nos acostumou com o caos em seus filmes, e agora ele traz esse caos para a centralidade da sua narrativa, e para as ferramentas de criação imagéticas que lhe servem. Diferente de ‘Vice‘, onde essa energia descontrolada saía do tom por servir a um excesso não identificado em seu roteiro, em ‘Não Olhe para Cima’ esse furacão caótico cabe – cacete, é o fim do mundo! Partindo desse princípio, o diretor parece enfim ter encontrado o tônus necessário para canalizar sua verve, que nos foi apresentada em outras esferas. Em resumo, o diretor de ‘O Âncora’ finalmente abraçou o diretor de ‘A Grande Aposta‘ sem concessões; se o espectador se despir de conceitos, sonoras gargalhadas virão.

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A montagem de Hank Corwin, habitual colaborador de McKay, é emblemática nessa discussão, porque parte dela os questionamentos a respeito do trabalho final em conjunto, também. Essa mesma e já citada energia caótica reside principalmente no trabalho de Corwin, que insere referências e frames e picotes e efeitos especiais até um ponto de exaustão, mas se isso em trabalhos anteriores soava como algo só destemperado, aqui encontra um ambiente ideal para credibilizar um filme que precisa dessa virtuose para encontrar algum conforto. O próprio uso das elipses narrativas, que não são bem resolvidas a todo tempo, quando acerta a utilização, garante momentos memoráveis, fornecidos pela sagaz montagem.

Não Olhe para Cima
Niko Tavernise/Netflix

O elenco é um capítulo à parte, e não tinha como ser diferente nesse grupo impressionante que recebeu mais de 40 indicações ao Oscar. Os protagonistas Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence poucas vezes estiveram mais descompromissados e adequados, felizes em estar realizando seu ofício. Meryl Streep, Jonah Hill, Mark Rylance e Cate Blanchett estão sensacionais, cada um desempenhando muito bem o espaço que lhe foi dado e aproveitando cada espaço possível dentro do que o roteiro apresenta para cada um. O único senão do elenco é a participação acanhada de Timothee Chalamet, com um personagem deslocado e quase desnecessário.

Todos eles igualmente contribuem para o andamento propositadamente desordenado em cena, que promove grandes momentos ao mesmo tempo em que se arrisca tanto a ponto de sair do ritmo. Com um miolo morno, ‘Não Olhe para Cima’ surpreende pela forma como abraça esses excessos e os transforma em virtudes, complexificando o cinema de McKay e retirando dele um caráter vago pra onde sua carreira parecia caminhar. Com essa assumida chanchada apocalíptica, seu cinema encontra de novo um caminho para surpreender e reencenar não apenas a realidade, mas também dialogar com o mundo atual de maneira aguda, mas muito consciente de cada uma das alfinetadas.

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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