Crítica | Festival

Vento Seco

Desejos palpáveis

(Vento Seco, BRA, 2020)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Daniel Nolasco
  • Roteiro: Daniel Nolasco
  • Elenco: Leandro Faria Lelo, Allan Jacinto Santana, Renata Carvalho, Rafael Teóphilo, David Machado, Larissa Sisterolli, Leo Moreira Sá, Mel Gonçalves
  • Duração: 110 minutos
  • Nota:

Desde sua primeira exibição pública, no festival de Berlim desse ano, Vento Seco já amealhou todo tipo de opinião, texto e defensor – até detrator. O novo longa de Daniel Nolasco parece pouco interessado em se comunicar com códigos do cinema contemporâneo (embora as comparações com Corpo Elétrico) não se furtem a aparecer) e mais em contribuir para a criação de uma linguagem de seu autor, e da explosão de uma cena goiana atual, que parece disposta a apontar no horizonte como o próximo quintal de qualidade da cinematografia brasileira, pós-Recife e MInas Gerais. Tem sabor de novidade o olhar de Nolasco para as relações humanas.

Se a bagagem cinéfila for Um pouco expandida, conseguimos enxergar uma inspiração não apenas do óbvio Querelle, mas de toda a assinatura fassbinderiana, em como acompanhar o contato entre corpos e espaços cênicos, e a fricção entre os mesmos; como se movem, como completam os cenários e como são todos desdobramentos do mesmo pensamento cinematográfico: corpo – espaço – intersecção entre eles. Nolasco ainda invade alguns códigos de tendência dessa década no cinema mundial, como o reaproveitamento no neon enquanto reaproveitamento do fim da Nova Hollywood (Drive, Corrente do Mal), no que também contribuem os sintetizadores utilizados na trilha sonora para reforçar essa ideia.

Vento Seco, de Daniel Nolasco, filme selecionado pelo 9º Olhar de Cinema

Existe um prolongamento das texturas emocionais vistas em Paulistas e Mr. Leather, mesmo que nenhum dos dois filmes pareça de fato se comunicar com seu novo longa; o que há é, como já dito, uma tentativa bem sucedida de comunicação de elementos a título de tornar-se uma assinatura reconhecível, o que só define suas intenções amplas como autor. Além do interesse genuíno em adentrar as fechaduras íntimas de uma cultura do interior sob óticas não-desenvolvidas enquanto inscrição de autoralidade anteriormente – agregar luzes e cores vibrantes a uma investigação real sobre o interior de pessoas emocionalmente fechadas, que se recusam a compreender a chegada do novo, em todas as suas funções. Inclusive o novo disfarçado de tradicional, ou seja, o novo particular.

Ainda que esteticamente a luz de Larry Machado (o fotógrafo goiano responsável, entre outros, por Vermelha) seja motivo suficiente para a hipnose coletiva, construindo contrastes entre a realidade e o pesadelo, o sonho e o concreto, criando texturas e elevando a temperatura com suas cores que têm vida própria, Vento Seco se eleva para além da possante moldura artística; estamos diante de um filme que, entre gestos de lascívia explícita, não esconde sua real capacidade de interiorizar seu olhar para uma cena marginal, e isso não quer dizer necessariamente ser gay – é um recado muito específico para um recorte de gênero muito específico.

Vento Seco, de Daniel Nolasco, filme selecionado pelo 9º Olhar de Cinema

Sandro é um homem do interior de Goiás, que já não está necessariamente entre as metrópoles mais cosmopolitas do país. Se esse homem já não está estampando as imagens produzidas pelo cinema, isso se afunila ainda mais se nos aproximarmos de suas idiossincrasias sexuais. O carinho com o qual trata não apenas seu protagonista, mas o respeito com o qual filma seu desejo, a integridade com o qual monta sua amizade com Paula e como eles se comunicam tão profundamente sem qualquer verbalização, a liberdade com o qual Nolasco investiga essa ciranda de amores abafados que entrelaçam fantasias e realidades… em tempo, há pureza e intensidade de cada movimento.

Cada abraço é vivido como se fosse o último, ou o primeiro e mais desejado. Cada toque de mão é comemorado com um brilho nos olhos incomensurável. Cada beijo é um portal de entrada para um espiral de provocações. Nolasco não acredita no gesto sem entrega absoluta, e quando Maria Bethânia canta “Negue”, é porque tudo está finalmente no lugar devido não apenas pelo desejo, mas essencialmente por uma imensa vontade de realizar aquela ação da maneira mais crível possível. É isso, Vento Seco nunca foge à credibilidade que as imagens forjam, tenham elas funções puramente estéticas e celebratórias, ou tenham elas a missão de radiografar o estado mais primal dos sentimentos.

Vento Seco, de Daniel Nolasco, filme selecionado pelo 9º Olhar de Cinema

Há uma forte convicção em toda imagem que é gerada: o dividir de cigarro entre amigos, uma despedida doída de aceitar e de entender, uma busca avançada por um sentimento que se traduza momentaneamente em gozo, uma delicada colcha de retalhos de personalidades tão interiorizadas que só podem produzir carinho não demonstrado, e por essa repressão, tão jorrado, quando possível. A crueza disfarçada de beleza da narrativa que Nolasco tricota no filme é tão palpável que só basta esticarmos as mãos pra alcançar, ou o fundo da memória.

Um grande momento
Loop

[9º Olhar de Cinema]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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