Crítica | Festival

Violation

Um novo jeito de olhar

(Violation, CAN, 2020)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Dusty Mancinelli, Madeleine Sims-Fewer
  • Roteiro: Dusty Mancinelli, Madeleine Sims-Fewer
  • Elenco: Madeleine Sims-Fewer, Anna Maguire, Jesse LaVercombe, Obi Abili, Jasmin Geljo, Cynthia Ashperger
  • Duração: 107 minutos

No subgênero female revenge, filmes onde as mulheres se vingam da violência contra elas praticada, o tom urgente e a atenção gráfica dada ao revide são elementos que se destacam. Pensando em filmes que abordam estupros, como A Vingança de Jennifer, Vingança ou filmes do tipo, por mais psicológicos que tentem ser, têm os corpos — na apresentação da personagem, agressão e desforra — como objeto principal da câmera. Violation subverte essa lógica.

Mais introspectivo e interessado em mergulhar no sentimento de sua protagonista, Miriam, o filme vai e volta no tempo para mostrar como cada detalhe daquele evento ocupa um espaço na trama e como o local é um personagem silencioso da trama, com seus espaços limitados de constrangimento ou sua amplitudes de insegurança.

Violation

A dupla Madeleine Sims-Fever e Dusty Mancinelli, que dirige e roteiriza o longa (ela ainda o protagoniza), aposta na mistura de sensações desconexas para tentar alcançar o desconforto da violência sofrida e do sentimento que a segue com o gaslighting praticado pelo agressor, algo muito comum no crime. Esteticamente a aposta é em abordagens múltiplas, com direito a imagens dobradas, caleidoscópicas que dão ao todo uma sensação de ruptura e inversão.

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Violation toca em pontos muito fortes e doloridos para todas as mulheres, já que é muito difícil encontrar alguma que nunca tenha passado por nenhum tipo de violência sexual. No Brasil, por exemplo, o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2019 mostrou que, a cada 8 minutos, uma mulher é estuprada. Além disso, trata da descrença e da culpabilização da vítima. A vingança de Miriam, elaborada em um tempo impreciso para quem acompanha o filme, traz tudo isso.

Violation

O que a violência que inicia a história tem de implícita, uma partida já diferente, a vingança tem de explícita. Todo o trauma causado pelo ato e pela descrença dos mais próximos é mensurável e os diretores demonstram que nem sempre tudo precisa estar em tela. Porém não tem o mesmo pensamento quando a ideia é mostrar o retorno. O corpo que se expõe — bastante — é o do abusador. Essa inversão é interessante, pois em um subgênero que sempre valorizou partir de uma estranha exploração do corpo que será violentado, a escolha por não mostrar significa muito.

Violation tem essa característica de chegar como um exemplar que quebra a tradição, modificando traços tão amalgamados que deixaram de ser questionados até mesmo depois de tanto tempo passado e de tantas mudanças ocorridas. E traz posturas importantes, como posicionamentos que são externos ao evento, mas que fazem parte de um trauma que não é só de Miriam, mas de todas.

Um grande momento
A dor da descrença no lago

[Sundance Film Festival 2021]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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