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Viveiro

(Vivarium, IRL, BEL, DNK, EUA, GBR, 2019)

  • Gênero: Terror
  • Direção: Lorcan Finnegan
  • Roteiro: Lorcan Finnegan, Garret Shanley
  • Elenco: Imogen Poots, Jesse Eisenberg, Jonathan Aris, Senan Jennings, Eanna Hardwicke
  • Duração: 97 minutos
  • Nota:

Antes de falar sobre Viveiro é bom um pouco de ornitologia. Embora o cuco apareça nos créditos iniciais do filme e seja citado em seguida, vale a pena saber um pouco mais sobre esses pássaros antes de adentrar no filme. Claro que o que eu vou falar aqui não tem nenhuma pretensão científica ou de observadores de pássaros profissionais, e servirá apenas para essa ambientação.

O cuco é uma ave parasita. As fêmeas depositam seus ovos em ninhos de outros pássaros e assim que os filhotes nascem, estes matam o resto da ninhada original, ou a derrubam ou matam de inanição, já que crescem muito mais rápido e comem toda a comida trazida pela mãe. Além disso, também tem um piar insistente e alto que tenta imitar o canto dos pássaros dos quais são parasitas.

Jesse Eisenberg e Imogen Poots em Viveiro (Vivarium)

Pronto. Apresentação feita, vamos ao filme que elabora todo um universo sem perder de vista o pássaro. Nele, uma professora primária e um jardineiro estão em busca de uma nova casa para se mudar e acabam em um condomínio esquisito, com um corretor mais esquisito ainda. Do verde água da casa ao azul do céu com nuvens iguais, tudo é propositadamente falso na prisão onde Gemma e Tom se encontram e de onde não há como fugir. Lá eles são obrigados a viver um cotidiano exatamente igual todos os dias, principalmente depois da chegada de uma estranha caixa com um bebê dentro. Eles devem criar o bebê para que voltem a ser livres.

O filme se beneficia da identificação, uma vez que a maioria de nós, pelo menos aqueles que se preocupam com a Covid-19 e podem ficar em casa, está em situação similar, mas não foi pensado assim. Embora ali se reconheça o principal elemento de Viveiro desde o título, em sua associação mais óbvia com o cuco, é na alegoria que ele encontra o interesse. Aquela relação, ainda mais depois de um bebê chegar, em seus desgastes cotidianos e repetições é bem construída nas elipses e contrasta de maneira muito positiva com todo a perfeição aparente do local.

Jesse Eisenberg e Imogen Poots em Viveiro (Vivarium)

Infelizmente, o diretor Lorcan Finnegan (Without Name) não consegue impedir totalmente que o marasmo da repetição ultrapasse a tela, talvez pela dificuldade de afastamento da história que criou. Porém, há muita coisa positiva no que se vê. E talvez a mais importante seja a dupla de atores que se empolga com aquilo que tem nas mãos. Quem dá vida ao casal é a dupla Imogen Poots (Um Amor a Cada Esquina) e Jesse Eisenberg (Café Society). Eles se entendem bem em cena e conseguem construir o desgaste, com alguns momentos de alívio. Nada que fuja muito do todo dia fazer tudo sempre igual e dessa vontade de estar em outro lugar sem conseguir sair dali.

Viveiro ainda atrai pelo visual elaborado e por seus estranhamentos. A vontade de desvendar o que acontecerá é muito maior do que qualquer ocasional cansaço. Há ainda ótimos momentos de ruptura, como o transitar entre universos por Gemma. No mais, naquele universo bizarro e improvável de aprisionamento está muito mais do que a associação com a natureza, está o mais puro e sem graça cotidiano. Ainda mais agora em tempos de confinamento.

Um Grande Momento
Entre universos.

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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