Crítica | Outras metragens

Jesus 2

Imortalidade compulsória

(Jesus 2, EUA, COL, 2025)
Nota  
  • Gênero: Animação
  • Direção: Jesse Moynihan
  • Roteiro: Jesse Moynihan
  • Duração: 8 minutos

A imortalidade, quando esvaziada de sentido, deixa de ser algo positivo. Em Jesus 2, Jesse Moynihan parte dessa premissa para construir um universo absurdo meio Hora da Aventura gospel às avessas, onde ninguém pode morrer e ninguém quer continuar vivendo. É nessa realidade que os irmãos Sunday e Monday, dois piratas espaciais, recebem a missão de destruir um messias perverso que atende pelo nome de Jesus 2, rompendo a maldição e devolvendo à humanidade a possibilidade do descanso final.

Mesmo que louco e intenso, o curta abraça o caos com naturalidade, ainda que o caminho se torne mais perdido do que realmente envolvente. Moynihan constrói um imaginário que mistura ficção científica, sátira religiosa e nonsense, tudo embalado por uma estética de animação vibrante e despreocupada com a lógica convencional. A bordo da nave Gran Madre, encontros improváveis e diálogos desconcertantes se sucedem com rapidez, criando um ritmo frenético. O humor absurdo mantém a trama em movimento, mesmo quando a lógica narrativa se perde.

A partir de certo ponto, a velocidade se torna um ponto de atrito. Com apenas oito minutos de duração, o curta condensa um universo inteiro em fragmentos, o que causa uma sensação de que algo sempre escapa. O espectador é lançado no meio da ação sem tempo de assimilar as regras ou compreender plenamente o que está em jogo. A experiência é divertida, mas a dimensão mais ambiciosa da história não consegue passar de uma sugestão.

Ainda assim, há um certo prazer em habitar esse universo. A inventividade visual e a construção dos personagens secundários mostram que o diretor sabe como criar no absurdo. A estética irreverente, que mistura referências pop, design ousado e diálogos carregados de ironia, faz o curta funcionar bem como provocação e faz com que se imagine o que mais poderia surgir caso a narrativa continuasse. A verdade é que seus oito minutos não têm fôlego para todas as suas ideias sobre os temas que estão ali sendo tratados.

É como se Jesus 2 fosse uma amostra da imaginação fértil, engraçada e inquieta de Jesse Moynihan, mas que deixa a sensação de teaser de uma que a história que ainda vai se completar.

Um grande momento
Gozando arco-íris

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, Critics Choice Association, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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