Crítica | Festival

A Alegria é a Prova dos Nove

(A Alegria é a Prova dos Nove , BRA, 2023)
Nota  
  • Gênero: Comédia, Drama
  • Direção: Helena Ignez
  • Roteiro: Helena Ignez
  • Elenco: Helena Ignez, Ney Matogrosso, Djin Sganzerla, André Guerreiro Lopes, Dan Nakagawa, Barbara Vida, Negro Léo, Guilherme Leme, Mário Bortolotto, Julia Katharine
  • Duração: 100 minutos

Não se pode negar personalidade a Helena Ignez, que traduz suas obras sempre com inegável assinatura. É um corpo de obra que não depende de qualquer coisa para se identificar e promover uma linguagem própria, com lampejos do que reconhecemos pela sua trajetória. A Alegria é a Prova dos Nove é sua mais nova aventura atrás das câmeras, onde está livre de cobranças ou fórmulas; quem as faz é a própria Ignez, que torna tudo que vemos em material ímpar. A definição de contexto vai por onde a autora consegue abarcar em sua obra – o que parece não fazer sentido, se vendo em meio a tantas possibilidades, é facilmente descrito como um festival de sentidos. Ideias com a qual a autora abre o leque e deixa que as referências multipliquem-se.

Quando juntamos referências e Helena Ignez na minha reflexão, podemos imaginar um sem número de ideias e argumentos, capazes de povoar algumas produções distintas. A diretora de Ralé tem pressa e resolve sempre tratar tudo sobre o que pensa ao mesmo tempo, sem interrupções. O resultado é, como aqui, uma colagem anárquica de situações e temas, que nem sempre conversam muito bem, mas eventualmente encontram uma ideia com a qual se conectar. Parece que todas as ideias possíveis foram colocadas em cima da mesa e nenhuma foi descartada, acabando por formar um mote irresistível. Não é um resultado orgânico, pelo contrário, acompanhamos o atropelamento generalizado de muitos caminhos a seguir, e Ignez decide não escolher, tratando todos sem muita apuração. 

Irregular seria uma palavra que definiria A Alegria é a Prova dos Nove com algum acerto. Mas há ali dentro um filme em específico que coloca o todo em ritmo de atenção. Ignez e Ney Matogrosso são um casal de amigos que já viveram muitas aventuras e romances juntos, desde uma viagem recordada ao Marrocos, até os dias de hoje, onde tudo parece rejuvenescido. Essa história que tenta uma atemporalidade, atravessando épocas para se fazer valer, é o que de melhor poderia surgir para o projeto. O que seria chamado de miolo é justamente onde estão as histórias que não dialogam entre si e se mostram cada vez mais avulsas na narrativa. Apesar do senso de porra louquice que deveria a princípio permitir isso, Ignez parece trabalhar contra sua própria obra, criando uma cacofonia boa parte do tempo. 

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A Alegria é a Prova dos Nove poderia ser apenas um filme sobre rememoração, sobre resgate de afetos e despedidas, e quando é sobre isso a proposta se eleva, colocando o espectador sempre em primeiro plano. Mas Ignez também tem interesse em refugiados palestinos, em violência contra a mulher, no mito do orgasmo feminino, na crise mundial que levou o Brasil de novo à fome… parece um balaio sem fim de ideias. Todas elas deveriam e seriam aproveitadas muito melhor se dispostas em uma obra única e dedicada, não em uma produção desconcertada onde o filme lá pelas tantas não parece mais interessado em um consenso. Jogando em todas as posições, o filme leva tanto tempo para se desenvolver, que acaba por não acontecer. 

Mesmo esteticamente parece estarmos diante de uma provocação que não se sustenta. Veja o trabalho realizado na direção de fotografia por Toni Nogueira, Flora Dias, Mirrah da Silva, Matheus da Rocha Pereira e Lucas Eskinazi (sim, o filme tem 5 fotógrafos); não há continuidade, ou coerência estética que amarre todos os processos. Como uma colagem que não se sustenta, por não criar uma base de confluência entre cada uma das muitas passagens, A Alegria é a Prova dos Nove não possui uma esteira estética que o ligue. Sua roupagem não segue qualquer padrão, ou mesmo a falta de padrão comunica sua ideia narrativa; qualquer ideia de unidade é esquecida, e o filme acaba passando como algo pouco caprichado. 

O elenco enorme escalado pela diretora não tem muito o que fazer, sem aproveitamento. Um destaque é a presença de Barbara Vida, que mesmo ela não parece conseguir um equilíbrio, mas quando o faz esbanja energia; sua cena com o encontro com o imigrante é tão surreal por sua causa, que carrega um humor inacreditável para a passagem. André Guerreiro Lopes também encontra uma serenidade que seu personagem representa bem, mas esses dois são os pontos altos de um grupo que se sai tão bem quanto o projeto permitiu. A energia caótica empregada por Ignez em cena, que poderia servir para um retrato sobre o descontrole em tempos avançados, interrompe o fluxo em sua totalidade, e mostra que A Alegria é a Prova dos Nove é um novo projeto da diretora que não se conserva fresco por muito tempo. 

Um grande momento

O encontro na praça

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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