Crítica | Outras metragens

A Beleza de Rose

Mulher periférica em primeiro lugar

(A Beleza de Rose, BRA, 2020)
Nota  
  • Gênero: FIcção
  • Direção: Natal Portela
  • Roteiro: Natal Portela
  • Elenco: Paulo Henrique Dos Santos, Rosa Lígia Dos Santos Rodrigues, Quézia Oliveira Dias, Oclenilde Maria De Oliveira Alves, Lucélia Medeiros, Tereza D’ávila Souza, Roney Souza, Palloma Rodrigues Chavier, Ana Darlene Dos Santos Cezário, Ana Beatriz Gaspar De Matos, Cecília Alves Da Costa, Hágatha Huanna
  • Duração: 20 minutos

Rose não tem rosto, a princípio. Porque existem milhares de Roses diariamente no país com os mesmos sonhos, as mesmas necessidades, a mesma batalha, o mesmo empenho: acordar cedo, levar o filho para a escola, sair em busca de uma colocação caso ela não exista, correr pelas ruas da cidade em busca de ser mais uma na multidão e ter as mesmas aspirações mundanas, e ainda assim esbarrar, no meio da tentativa de realização, com os preconceitos, as impossibilidades, os caminhos travados pelos gestos ou pelas palavras. A Beleza de Rose é um recorte tão banal quanto poético no meio de um dia a dia que não esconde seus horrores.

O cineasta Natal Portela correu os olhos diante da realidade diária de uma brasileira média a partir da periferia, e extrai o naturalismo frugal sem disfarçar as barreiras, as dores e o desamparo que se seguem à eterna tentativa de inclusão. Mulheres periféricas morrem todos os dias – por feminicídio, por violência policial, por estruturação do racismo, por omissão, por corrupção, por abandono. São inúmeras Marielles, milhares de Thaysas, incontáveis Kathlens, que não têm direito a acordar no dia seguinte e tem seus sonhos atravessados pelo derramamento do próprio sangue. Embora não trate exclusivamente sobre a violência que irrompe nessas vidas, o filme abre essa possibilidade de olhar.

Essa brecha é aberta quando a rede invisível impede Rose de avançar em seu sonho, uma barreira que não existe propriamente mas está lá, atravancando qualquer tentativa de futuro imediato. Nada é concreto, mas quando você ouve que seu cabelo afro precisa ser preso para uma foto de emprego, mesmo que a inocência não arranhe as palavras, fica claro quantos obstáculos precisam ser saltados, ouvidos e ultrapassados para que o próximo dia chegue e seja minimamente viável; a esperança é a última que morre? A sobrevivência dessas mulheres e de seus filhos depende de avançar cada preconceito colocado à frente desses núcleos familiares partidos.

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A Beleza de Rose nos ganha muito mais pela sua simplicidade e pela textura humanista em cada detalhe despercebido. É em cada mulher que Rose cruza em sua trajetória, da vendedora de cafezinho até a pedinte com seu filho sentada na calçada de uma loja, passando pelos rostos que também querem a vaga que nossa protagonista quer na busca por uma colocação no mercado de trabalho. Em cada close de suas personagens, de seus afazeres, da forma de modificar a própria imagem para adquirir uma passabilidade que violenta mais que ajuda, o filme se arvora na direção de um sujeito que se invisibiliza a cada nova esquina em nome de uma aceitação – que talvez nunca venha.

As metáforas narrativas e visuais são eficientes, a ideia final relacionado ao cabelo é muito boa e forte, o ato de desfazer o que já foi concluído tem seu impacto, mas essas ideias já foram exploradas anteriormente, ainda que não perca sua força essa atualização de registro. Mas é na junção do banal de suas imagens mais prosaicas com sua ideia explosiva que Natal Portela potencializa sua obra, que acaba com uma força que se conecta com a ideia de futuro que se apresenta também em Casa de Antiguidades; confiar no que está por vir, em uma geração que vai revolucionar a relação entre essas mulheres e suas vidas diárias com uma revolução, interna ou externa.

Um grande momento
A barreira

[49º Festival de Cinema de Gramado]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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