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A Filha Perdida

A mulher que fugiu

(The Lost Daughter, EUA, GRE, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Maggie Gyllenhaal
  • Roteiro: Maggie Gyllenhaal
  • Elenco: Olivia Colman, Jessie Buckley, Dakota Johnson, Ed Harris, Peter Sarsgaard, Dagmara Dominczyk, Paul Mescal, Jack Farthing
  • Duração: 121 minutos

Há muita consciência em Maggie Gyllenhaal no que fazer nessa sua estreia como diretora, e em como seus temas poderiam ser sugestionados a uma fatia de público muito restrita – mulheres, especificamente mães. Ainda que esse de fato seja um registro que interessa ao filme, o persiga e provavelmente obtenha sucesso com essa fatia (digo provavelmente porque nunca serei mulher, muito menos mãe, então só imagino que sejam acertos), a jovem atriz investe em uma sensorialidade universal, e é através dessa conexão emocional com o público que ‘A Filha Perdida’ alça seus belos e sutis voos, angariando um público que ano passado se conectou a ‘Pieces of a Woman‘, em outro segmento de temas afins.

Indicada ao Oscar por ‘Coração Louco’, Gyllenhaal adapta um romance da italiana Elena Ferrante em sua estreia, dando vazão a um olhar muito compenetrado para o seu escopo. Sua lente é uma ventosa no corpo de Olivia Colman desde as cenas iniciais, quase deformando nosso campo de visão de tão aproximada daquela mulher em busca de novos capítulos perdidos. Com essa ideia de levar até o público a experiência mais tátil possível dos eventos mostrados, essa escolha por uma aproximação em super close no limite da claustrofobia é intencional e de enorme carga humana; estamos na pele de Leda, esteja ela no tempo que estiver, a seguimos.

A Filha Perdida
Yannis Drakoulidis/NetflixETFLIX

Hélène Louvart (de ‘A Vida Invisível‘) é a responsável pelas imagens e pela luz pensada pela diretora, e juntas elas potencializam seus predicados. Se ‘A Filha Perdida’ é um filme tão quente, tão solar, tão cheio de lágrimas frugais e humanas, de risos amarelos e largos, de desejo, de melancolia e sede de mais, é porque a concepção desses planos foi milimétrica em estabelecer esses parâmetros, como no jantar da jovem Leda e a troca de cadeira dela, ou na ideia de prisão infantil que sua casa é revestida. Cada assertividade imagética que o filme proporciona, levando o espectador a uma miríade de sentidos, está na proposta espacial de sua fotografia.

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Gyllenhaal tem ideia de que textura quer apontar nessa sua investigação do feminino. Ela não cede à amargura de colocar toda a realidade ligada a mulher como um fardo pesado, seja a maternidade, a feminilidade, a idade, o desejo, tudo está colocado na balança como elementos positivos ou negativos, logo nada é demonizado, porém passa igualmente longe de aprovação irrestrita. A diretora esquadrinha bem essa ciranda de eventos e nos coloca no olho do furacão por diversas vezes, quando nos insere em perdas físicas, em jogos de sedução, em pequenas estranhezas agudas diárias que jogam o filme em lados tão extremos, mas que conseguem se comunicar. O naturalismo não cede seu espaço para o artifício, mas eles se intercambiam de maneira orgânica.

A Filha Perdida
Yannis Drakoulidis/Netflix

Infelizmente, ‘A Filha Perdida’ adquire desnecessárias pontuações criminais crescentes em sua base, que vão germinando em pontos inexplicáveis e tirando da produção seu jogo tão bem urdido entre mulheres, sejam elas amigas, desconhecidas, mães ou filhas. É criado um contexto romântico-policial em cena que não se conecta com nada do que era o cerne absoluto do filme, e essa trama rouba o registro do filme. Ainda que pitadas de desagravo e tensão sejam arremessadas na narrativa aqui e ali, nada justifica o filme absolutamente embarcar rumo a um novo gênero, com novas diretrizes narrativas e estéticas, dando a entender uma perda de identidade.

É uma pena que um projeto tão robusto, com uma narrativa tão bem construída, ceda espaço para um adendo que deturpe seus caminhos originais. Isso não delimita o trabalho da diretora Gyllenhaal, mas arranha feio a criação da roteirista. Saem ilesos os trabalhos impecáveis de Olivia Colman e Jessie Buckley, vivendo duas fases de uma mesma Leda, uma mulher que se comunicaria tranquilamente com feministas históricas e do nosso tempos. O olhar que a personagem lança e sua diretora consegue captar é o de reestruturação dos papéis arquétipos aceitos para o feminino, sem destroçá-los mas observando os limites impostos e rindo da cara de cada um deles.

Um grande momento
Leda, no jantar, fala de Bianca e Martha

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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