Crítica | Cinema

A Lenda de Candyman

Não há paz para a doçura

(Candyman, CAN, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Nia DaCosta
  • Roteiro: Jordan Peele, Win Rosenfeld, Nia DaCosta
  • Elenco: Yahya Abdul-Mateen II, Teyonah Parris, Nathan Stewart-Jarrett, Colman Domingo, Kyle Kaminsky, Vanessa Williams, Brian King, Miriam Moss, Rebecca Spence, Carl Clemons-Hopkins, Christiana Clark, Michael Hargrove
  • Duração: 91 minutos

Desde a abertura, ainda no longínquo 1977, A Lenda de Candyman trata de trazer seu pano de fundo ao centro da discussão, ainda que imageticamente. Os conjuntos habitacionais observados nesse flashback engolem o pequeno personagem que caminha pelas ruas e corredores, a certeza de uma escuridão que não começou naquele tempo nem foi perpetrada exatamente por aquelas pessoas. Uma frase fica marcada nesse prólogo, “nesse dia eu conheci o mal”, e quando o filme desfia os mantenedores desse mal na frente do espectador, a carga política proferida nesta cena em tão sutil apresentação, fica clara que não estamos diante de mais um filme de gênero, nem é justo observá-lo sob esse prisma tão raso.

Sob a alcunha de ganhar baits vazios, a imprensa mundial vem atrelando a autoria dessa nova ideia para o conto de Clive Barker como sendo de Jordan Peele, o homem por trás de Corra!. A Lenda de Candyman é dirigido por Nia DaCosta, que estreou com Little Woods e em seu segundo longa metragem não poderia ficar mais distante da assinatura que consagrou Peele, com um filme que é muito mais frontal e direto, de suas ideias e de suas imagens. Diferente de seu produtor, a jovem cineasta tem pressa por confronto e, apesar de também metaforizar a questão étnica e refletir a discussão racial, desde o início sua proposta é expor a violência de maneira literal.

A Lenda de Candyman
© 2021 Universal Pictures

Essa mesma violência não está sendo praticada apenas de maneira gráfica, mas também narrativa; não apenas cerceando os espaços geográficos de uma etnia, mas explicitando sua inconveniência ocupacional, mostrando a porta para os “invasores” se retirarem. Se não estava na ordem do dia no original dirigido por Bernard Rose em 1992, aqui o espaço físico confronta o corpo negro e o expele, transformando sua carne em cicatriz. Quando chega ao presente, a região gentrificada que habitam os personagens os oprime visualmente e narrativamente, com seus prédios a invadir os planos de maneira insidiosa, quase ameaçadora, enquanto seu texto expõe o desacerto entre seu lugar de origem e seu estado atual – é o mesmo, e já não é mais.

Apoie o Cenas

Escrito a seis mãos, o roteiro de A Lenda de Candyman enxuga seus conflitos até só restar o sumo principal. Se isso causa velocidade de acontecimentos e propicia uma concentração de eventos, também isso contribui para resumir sua intencionalidade e manter o filme sem o aprofundamento que poderia ter, e um mergulho mais profundo no racismo e na herança para um genocídio racial que ainda não cessou. Isso equaliza o gênero, no entanto, dando ao filme uma precisão cirúrgica de eventos em ritmo e em cadência de desenrolar. De maneira ambígua, a mesma tessitura que beneficia o filme por um lado o impede de alçar voos ainda mais profundos em outro. Seu roteiro resume suas cenas de ligação, sonega a intermediação, para mais rápido acelerar seu ponto de ataque.

A Lenda de Candyman
© 2021 Universal Pictures

Nada disso, no entanto, empalidece o trabalho estético de DaCosta, que impressiona pelo preciosismo tão raras vezes proposto no terror/horror. O lugar que alcança com seu trabalho ainda tão cedo é de um olhar experiente para a composição de planos, da consciência da potência de suas imagens e da reverberação que pode causar a violência que filma, não apenas forjando seu retrato como escolhendo o que e como filmar. Na maioria das vezes, o terror encontra saídas pouco orgânicas para não afastar o público com sua crueza, simplesmente cortando da cena a exposição. A Lenda de Candyman não foge do horror, mas quando não o busca, o faz de maneira absolutamente funcional, em trabalho brilhante de John Guleserian (que chega ao mesmo dia na Netflix com Ele é Demais); reparem na criação dos universos narrados, um trabalho de recorte e sombras tão simples quanto de resultado de profunda beleza.

Sem recorrer a arranjos subliminares, A Lenda de Candyman transforma o racismo em fonte do horror mais puro, aquele que extermina diariamente com a exclusão, com a verbalização, com a ação policial, por décadas e décadas, por séculos. Quando o ‘homem doce’ vem mais uma vez clamar uma reparação por todo o horror que enfrentou ao longo da História, o homem gentil, o homem puro, o homem sensível, e se transforma enfim em máquina reparadora; o filme que se absorve hoje não é o mesmo de 30 anos atrás. DaCosta está dizendo que, se o ciclo que já devia ter sido interrompido há muitas gerações não for freado, não restará à delicadeza outra saída que não o abraço ao obscuro.

Um grande momento
Daniel Robitaille

Curte as críticas do Cenas? Apoie o site!

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
Botão Voltar ao topo