Crítica | Cinema

Lamento

Moralismo antiquado

(Lamento, BRA, 2019)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Claudio Bitencourt, Diego Lopes
  • Roteiro: Diego Lopes
  • Elenco: Marco Ricca, Thaila Ayala, Veronica Rodrigues, Marco Zenni, Ilva Niño, Otavio Linhares, Diego Kozievitch, Renet Lyon
  • Duração: 110 minutos

Circunscrito a dois cenários-base, o universo de Lamento é delimitado como a vida de Elder, seu protagonista. Homem enlutado por diversas perdas, Elder é a imagem do fracasso. E também da desesperança, da melancolia, da inércia, do cansaço… não há muitos motivos para que ele lute pela existência, e o filme coloca à sua disposição caminhos cada vez mais aprazíveis rumo à auto destruição. O espectador, sem muitos motivos para torcer que o personagem tome o rumo de volta do seu estado de horror interno, assiste a essa descida vertiginosa sem conseguir empatizar com esse homem morto em vida.

Estreia em longas de Diego Lopes e Claudio Bittencourt, o filme consegue nos colocar no lugar de Elder, um homem flagrado no exato momento em que desistiu de lutar, e se entregou ao horror que imagina ter cabido a si. A abertura do filme é (em spoiler do fim do texto) realmente seu grande momento, porque nos mostra o lugar que aquele homem acredita ser o seu hoje: espectador passivo dos acontecimentos à sua volta, sem possibilidade de envolvimento e sem forças para lutar contra a vigência do horror. Ele acata o que foi imposto, aceita o cuspe na cara, ainda separado por um vidro ali, mas que continuamente se aproxima cada vez mais do próprio rosto, até ele mesmo passar a se cuspir.

 Foto: Nick Maftum
Foto: Nick Maftum

Um dos grandes problemas de Lamento reside em não conseguir manter essa conexão do público com seu protagonista. A partir do momento em que o personagem não se importa muito consigo mesmo, com o que está acontecendo a sua volta, com os personagens que o rodeiam (sua esposa, seus funcionários, e até com o hotel que pareceria ser seu norte), não há espaço para que também quem assiste se importar com ele. O filme cria um antagonista para ele com ares de vilão de telenovela daqueles bem nojentões e ainda assim, a cada vez que o vilão não está em cena, Elder volta ao seu interesse único – se afundar cada vez mais.

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O hotel em questão, uma herança de família que o protagonista não consegue honrar, foi criado no roteiro para ter uma importância de personagem no que é apresentado, mas o filme não consegue abraçar essa realização, porque nada é feito para dar vida a esse cenário, tão desmotivado quanto seu dono. Não há exploração da direção de arte, não há uma busca por unificar Elder a seu elemento espacial, o filme não desenvolve uma relação necessária entre o humano e seu espaço físico, que parece ter sido uma intenção do roteiro – que é de Lopes. Sem essa transposição, também essa marcação cênica soa desperdiçada e gratuita.

 Foto: Nick Maftum
Foto: Nick Maftum

O bom elenco, encabeçado por um dos grandes atores da atualidade, não conseguem ser suficientes para suscitar interesse por essa narrativa cuja importância é esvaziada também pelas obviedades de suas metáforas. Marco Ricca (de Chatô, Canastra Suja, As Duas Irenes, Hebe, Aos Teus Olhos, e poderia ficar aqui horas enfileirando os grandes momentos do ator na última década) está em cena, seu talento não é escondido pelos erros da produção, mas ele não tem o que fazer quando o filme não explicita o que só deve fazer sentido no roteiro escrito, não transposto na tela. Temos mais um grande momento de Ricca, mas sem elo de ligação com o que seria palpável, seus esforços são inúteis, e a bela cena no parapeito do prédio, por exemplo, não acrescenta nada ao projeto que não esgarçar suas metáforas.

Um filme que começa até com sutileza como Lamento e a cena já mencionada, onde Elder testemunha uma agressão física em estado inerte, porém avança cada vez mais no óbvio e em códigos pobres como a da personagem de Thaila Ayala (precisávamos mesmo de uma representação física e gráfica como aquela?), com soluções moralistas para dependência química e para a depressão, e não resta muito ao espectador para lamentar ao final. Talvez por Ricca, um belo ator que com o que tinha a sua disposição consegue ainda dar brilho próprio a um filme cujas intenções ficaram no papel.

Um grande momento
A abertura

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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