Crítica | Cinema

Infiltrado

(Wrath of Man, GBR, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Guy Ritchie
  • Roteiro: Guy Ritchie, Ivan Atkinson, Marn Davies
  • Elenco: Jason Statham, Holt McCallany, Rocci Williams, Josh Hartnett, Jeffrey Donovan, Scott Eastwood, Andy Garcia, Deobia Oparei, Laz Alonso, Raúl Castillo, Chris Reilly, Eddie Marsan, Niamh Algar, Tadhg Murphy, Alessandro Babalola, Mark Arnold, Gerald Tyler, Alex Ferns, Josh Cowdery, Jason Wong, Rob Delaney, Eli Brown, Kerry Shale, Cameron Jack, Darrell D'Silva, Babs Olusanmokun, Thomas Dominique
  • Duração: 119 minutos

Há quem saiba fazer um filme de ação pintoso, elegante, e esse alguém é Guy Ritchie. Até sua sujeira é estilosa, bem posicionada. E ele encontrou alguém que tenha essa postura convencida, do cara bonitão com roupas alinhadas — ainda que sejam de malhar — que entra nos lugares chamando atenção, Jason Statham. Infiltrado é um filme que está no lugar de conforto dos dois, agora que já estão, vamos dizer assim, maduros, sem aquela ansiedade dos primeiros trabalhos juntos na juventude, mas ainda cheios de adrenalina para liberar.

Este filme de roubo, inspirado no longa francês Assalto ao Carro Forte, tem um prólogo que já indica que o grau de ação será proporcional ao suspense, já que o diretor vai deixar o que bem entender fora do quadro. A história contada é a de H, o dono do filme no melhor estilo “se você não tem medo de mim é porque ainda não me conhece”. Ele tem um passado e uma missão que vão se revelando aos poucos enquanto começa um trabalho como segurança privado numa companhia de transporte de valores. Sua apresentação vem junto com a da empresa e não é difícil perceber que ele está ali por outro motivo.

Infiltrado é basicamente um filme de outros motivos. Nenhum dos personagens é aquilo que diz ser, ou faz aquilo que parece ser destinado a fazer. É aos poucos que se percebe que todos os pontos da cadeia estão presentes: família, máfia, corruptos, drogados, bandidos baratos, bandidos de elite, policiais, FBI, num emaranhado que teve que se conectar e dele se destacam quatro personagens além do protagonista: Bullet (Holt McCallany), agente King (Andy Garcia), Mike (Darrell D’Silva) e Jan (Scott Eastwood).

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Ritchie brinca de ser H com quem assiste ao filme. Ele sabe muito bem onde deve ir e o que precisa fazer, mas entrega apenas o mínimo necessário da trama para que o espectador aceite a brincadeira. 70%. O jogo que se segue é curioso, você conhece os personagens, sabe como eles funcionam, identifica onde estão e pode até antecipar alguns passos, mas sempre existe um outro ponto da história, numa conexão escusa e não explorada que só vai se revelar lá na frente.

O elo que amarra todas as pontas é construído numa cena que expõe a cinefilia e a habilidade de Ritchie. Tem tensão construída em desfoque e slow motion, tem desenho de som preciso e tem citação a Três Homens em Conflito, inclusive com parentesco na vida real e ficcional, além de plano fechado, movimentos de câmera e fade out que fazem a trama tomar um rumo mafioso muito mais evidente e autoral do que estava trilhando até então.

A trama de Infiltrado é muito bem elaborada em seu vai e vem infinito e consegue se manter mesmo com suas repetições. Porém, tem uma de suas pontas mais frouxas do que as outras e é, curiosamente, aquela que se afasta mais do modelo ritchiano de cinema. Marcada pela passagem de um trem com a marca dos Lakers, há algo como uma americanização — se é que se pode falar isso — do filme quando ele é invadido não só pela apresentação de alguns de seus personagens e o ponto de ligação, mas também pelo grande golpe. 

A perdida de mão vem com atuações em descompasso, outra arte e um ritmo que traz a vontade de sair daquele lugar. É como se um outro filme invadisse o que estávamos assistindo até então. Mesmo a revelação que já esperávamos não é tão decepcionante quanto isso, mas é o que leva o longa até seu momento mais intenso de ação que, este sim, não desaponta.

Embora perca pontos na sua irregularidade, Infiltrado já tinha muitos ganhos até ali e termina com saldo positivo. E ainda tem o final para dar uma mãozinha, quando a parceira entre Ritchie e Statham volta às origens e lembra ao que veio.

Um grande momento
Saindo do furgão no meio da fumaça

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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