Crítica | Cinema

The Hand of God – A Mão de Deus

(È stata la mano di Dio, ITA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Paolo Sorrentino
  • Roteiro: Paolo Sorrentino
  • Elenco: Filippo Scotti, Toni Servillo, Teresa Saponangelo, Marlon Joubert, Luisa Ranieri, Renato Carpentieri, Massimiliano Gallo, Betty Pedrazzi
  • Duração: 130 minutos

Paolo Sorrentino é um cineasta que celebra o cinema italiano por excelência, em todas as divisões que o mantiveram relevante e fazendo frente ao cinema americano na sua História. Ainda que nos últimos 20 anos sofra com uma espécie de entressafra que não parece cessar, é justamente Sorrentino que vem constantemente lembrando como o cinema da sua terra, que já nos deu Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, Vittorio de Sica, Luchino Visconti, Sergio Leone, Pier Paolo Pasolini e Mario Monicelli e tantos outros, não pode ser esquecido. Depois de ‘A Grande Beleza’ ser uma espécie de versão para os dramas da burguesia dominante, esse ‘A Mão de Deus’ evoca o cinema de emoção familiar da classe média.

A identificação é imediata, também porque Sorrentino não está interessado em rebuscar sua autoralidade ou sua linguagem. Descobrindo um alter ego dentro de seu filme e o colocando como uma testemunha ocular que vai descolando-se dos acontecimentos até adquirir vida própria e tomar para si a relação com os eventos que o circundam, o filme é uma imensa colagem revitalizante para um recorte da cinematografia italiana. Sua imensa moldura parte desse personagem central, que passeia pela própria família, pelas ruas de seu bairro, pela juventude que lhe cabe, e radiografa sentimentalmente cada encontro, tomando esse exemplo de narrativa para homenagear suas origens enquanto cineasta.

A Mão de Deus
Gianni Fiorito

Tudo é facilmente reconhecível, como entrar em uma espécie de máquina do tempo cinematográfica e acessar um período que o diretor prova que não precisa ser tratado como morto. Ao mesmo tempo em que absorve um discurso pró-juventude, assumindo que seu alter ego é o futuro a ser alcançado e que o passado é uma construção com o qual precisamos lidar para poder nos libertar, o filme não abre mão dessa elegia a um passado mais performático que imagético, que nos arremessa para uma composição. Como se estivesse em constante quadro de recriação, o filme mergulha na nostalgia sem vergonha de se assumir objeto do passado.

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Isso também acarreta uma situação subjetiva que não há de importar a todo espectador, mas que precisa ser observada, já que o filme aponta uma tentativa de revitalização. A situação envolve a reiteração sobre uma antiquada dose de masculinidade, que inclui a erotização do corpo feminino, aquelas conversas juvenis sobre perda de virgindade, que entendemos fazer parte do pacote que remete ao que está sendo homenageado. Porém esse é um aspecto que poderia ter caído em revisão de superação, para que suas conduções estivessem seguindo para outras pautas, ainda que também nesse lugar sejam produzidas imagens de beleza desconcertante.

A Mão de Deus
Gianni Fiorito

O roteiro também de autoria de Sorrentino cria um universo hiper lotado de tipos e situações, mas nada parece se atropelar ou sufocar a produção. Grande parte do que vemos é a família do protagonista, construída na tradicional maneira ruidosa de um grupo de italianos típicos; serão estereotipados? Acho que há sempre carinho por todos em cena, da baronesa frustrada que mora no andar de cima ao traficante de cigarros carente, da avó desbocada e comilona a mãe adepta de pregar peças na família, tudo parece não apenas ter vida e particularidade, como seu fascínio é captado pela câmera, deixando quase tudo em cena com um aspecto nostálgico.

Em cena, a construção de planos de ‘A Mão de Deus’, auxiliada por um trabalho fotográfico exemplar, é um dos elementos que contribuem para fazer do novo filme de Paolo Sorrentino uma experiência tão atraente para cinéfilos ou um público menos ligado à historicidade. Com um apelo irresistível para qualquer público, é um filme que questiona o poder da inspiração, a auto suficiência da juventude, e recorta uma Nápoles muito mais próxima de seus habitantes que de seus cenários, conferindo que o resultado final privilegie o envolvimento emocional, afinal estamos falando de cinema italiano, não é mesmo?

Um grande momento
A chegada ao hospital

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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