Crítica | VoD

Abismo Tropical

Longa jornada adentrando o retrocesso

(Abismo Tropical, BRA, 2019)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Paulo Caldas
  • Roteiro: Barbara Cunha, Giovanni Soares, Paulo Caldas
  • Duração: 72 minutos
  • Nota:

“Cinema latino-americano como indústria da autonomia do imaginário”
José Carlos Avellar

Paulo Caldas é um imigrante nordestino nascido em João Pessoa, na Paraíba. Cresceu em Marabá, cidade paraense, casou no Rio de Janeiro, fez filhos e filmes no Recife. Faz parte da geração que mudou o cinema nacional: ele, Lírio Ferreira, Cláudio Assis, Hilton Lacerda e Marcelo Gomes. Vive em São Paulo, onde realizou Abismo Tropical. Autoficção que inebria, praticamente toda rodada ao longo da Avenida Paulista, no fatídico dia 28 de outubro de 2018. Com visceralidade poética, Caldas entregou um dos melhores filmes de 2019, exibido na 43ª Mostra de SP e que agora pode ser visto na plataforma Innsaei.tv

O título refere-se ao mergulho que todos nós, brasileiros, demos em direção ao abismo profundo da obscuridade após a eleição do miliciano Jair Messias Bolsonaro para presidente. Numa construção cênica em preto e branco e acinzentados, transeuntes passam pela câmera do cineasta em slow motion – que tem muito a ver metaforicamente com o torpor. Numa elipse narrativa temporal de 24 horas, acompanhamos, da meia-noite em diante, um dia “que termina e outro começa, um dia se finda e minha agonia só começa, como se acometido de uma asma emocional. O inverno, insistindo em ficar.”

“A noite vai ser longa”

E se o abismo nos cerca, o prólogo do filme, de cerca de 11 minutos, dá a ambiência exata de angústia e do senso de perigo que a eleição presidencial trouxe para nós. Os sintagmas que se formam na tessitura audiovisual passam ao largo de uma tentativa de doutrinação ideológica. Abismo Tropical é uma demonstração retumbante e clara da convulsão social brasileira sintetizada no dia da eleição presidencial. São pessoas tomando as ruas, celebrando o carnaval do ódio, da barbárie, com crianças sendo sacudidas nos ombros dos pais, fazendo arminhas com as mãos.

Abismo Tropical (2019)

Com roteiro escrito a seis mãos, por Caldas, Barbara Cunha e Giovanni Soares, Abismo Tropical é como um espelho, refratando os atos e pecados dos pais. O cineasta narra a história do pai, militar e valente, preso pelos cães da ditadura ao passo que a imagem que cobre o off é a de um morador de rua, seguido por um cachorro, que tira comida do lixo e depois tenta se embrulhar com um saco plástico, tentando dormir no chão gelado.

O desenho sonoro de Abismo Tropical vem a ser um grande elemento diegético, para além de caber com perfeição na construção de paisagens audiovisuais com o que se vê e se sente. Na composição visual, o filme-ensaio se inspira nas Sinfonias Urbanas de Alberto Cavalcanti, Walter Ruttmann e Dziga Vertov. O belo trabalho de cinema de arquivo feito por Jean-Claude Bernardet em seu curta-metragem São Paulo, Sinfonia e Cacofonia também ressoa nas cenas em que o filme se detém na arquitetura, nas formas e sinuosidades da avenida. Na trilha com batuques e disfonias, como se evocando sons ancestrais e futuristas que provoquem um despertar.

Abismo Tropical explicita o hoje tão tão cinza e desperta a sensação de “E se pudéssemos apertar erase/rewind na nossa história recente?”, elaborando saídas hipotéticas para retomar o estado de felicidade tão alardeado mundo afora – afinal, Brasil é um país tropical abençoado por deus e bonito por natureza. Mas os traumas de 28 de outubro de 2018 permanecem, contendo em si um luto perene. Ao emular Asas do Desejo (ele mesmo, o filme de Wim Wenders), Caldas representa a fé no que virá por meio do emprego de uma ação, de um verbo: lutar. Que possamos nos abraçar e resistir.

Abismo Tropical (2019)

Que um homem com a máscara de Donald Trump, punho em riste, vestido de paletó e gravata com uma bandeira brasileira amarrada no pescoço, desfilando em nossa direção, não mais nos meta medo ou entristeça. Que esse mundo de ponta a cabeça, onde o Brasil está invertido e convulsionando – como a câmera bem representa, desenhando picos de arranhas céus no concreto e pessoas nos ares -, volte ao normal.

“Desassossegados permanecemos acordados”

Abismo Tropical codifica o inimaginável retrocesso em um espasmo fantasmagórico de pessoas que, agitando bandeiras do Brasil, gritando palavras de ódio e estampando a imagem do neo-ditador no peito se consideram patriotas. O hoje cinza é por um instante suprimido na narrativa pelas palavras de Clarice Lispector e de Milton Nascimento, para dar algum acalanto. Já que o que desejamos ainda não tem nome, devemos manter a fé cega, a faca amolada. Como os jovens que se reúnem no vão do MASP para celebrar a vida e, quem sabe um dia, a retomada da democracia.

Um grande momento
Trumpismo na paulicéia

Ver “Abismo Tropical”

Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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