Crítica | VoD

O Ponto Firme

Sonhos de liberdade e arte

(O Ponto Firme, BRA, 2020)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Laura Artigas
  • Roteiro: Laura Artigas
  • Duração: 96 minutos
  • Nota:

Na guarda, guerreiro, levanta a cabeça, truta
Onde estiver, seja lá como for
Tenha fé, porque até no lixão nasce flor

Diário de um detento. Guarulhos, penitenciária Adriano Marrey. Erick segura um jornal, está lendo reportagem ilustrada, folheia, com a boca entreaberta, repete silenciosamente cada palavra impressa, mira as fotos e se reconhece: “Sou eu aqui ó. Só me imaginava saindo em página policial, nunca assim, fazendo isso aqui. Estou feliz.” O tempo entre as costuras, o desafio aceito pelos detentos que participam da primeira turma de crochê da penitenciária municipal e a maneira como eles vão confiando no professor e se descobrindo no processo é o mote de O Ponto Firme. O filme de Laura Artigas, que acompanhou a rotina da turma entre julho de 2017 e abril de 2018, estreou na plataforma Spcine Play durante essa semana de São Paulo Fashion Week.

Num universo onde 33% dos encarcerados estão cumprindo pena sem direito a um julgamento prévio, onde 60% são homens negros e 23% não participam de atividades culturais, formativas ou que visem a reinserção, o documentário vem colocar sob os holofotes algumas vidas que, num primeiro olhar pré-concebido, estariam automaticamente invalidadas pelo sistema, como denuncia Tiago, um dos mais talentosos da turma, que já devia estar em liberdade mas tropeça num judiciário moroso e claudicante. Ele faz as vezes de entrevistador em O Ponto Firme – suas cenas, onde interpela os outros ‘trutas’, não são os pontos fortes do filme, pois parecem muito artificiais, ensaiadas -, e é o principal ajudante do estilista Gustavo Silvestre. Em um dos momentos de seu talking head afirma que pretende trabalhar com moda mesmo sendo difícil se inserir no mercado.

O Ponto Firme (2020)

A perspectiva que o filme traz em termos de espacialidade do cárcere introjeta certo frescor numa sub-modalidade do documentário, que é aquele dedicado a narrar a vida na penitenciária. O Ponto firme basicamente se passa dentro da sala onde o ateliê existe durante o período do projeto. E, logicamente, no backstage e na passarela da São Paulo Fashion Week, onde Silvestre apresenta o resultado da sua imersão com os detentos. Mas bonito mesmo é ver que atrás das grades existe vida, cores e arte pulsantes. A câmera passeia pelas mãos e olhares concentrados daqueles homens, que firmam o tecer para “deixar a mente viajar mais”. Thiago conta que o ponto alto e o relevo da cintura são os que mais gosta de fazer e que crochê é uma maneira de demonstrar amor, que faz para presentear. No ponto solto, o crochê se torna libertário. Dá a chance de recomeçar, de tentar dar o seu melhor.

Nos respiros, momentos em que tenta conduzir de menos e dá tempo para que os homens possam falar sobre suas criações, elaborar maneiras de expressar como aquilo que, por mais que pareça algo feminino, faz bem para suas cabeças, é que O Ponto Firme cresce. E aí não precisa ir muito além do que se vê: detentos e professor interagindo, montando vestidos e adereços, deixando fluir.

Descobrindo que são capazes de muita coisa, eles se divertem aprendendo a fazer transfer em camisas, escolhendo frases – muitas citações bíblicas – ou escudos do timão para ilustrar. “Desacreditar, nem pensar!”

O Ponto Firme (2020)

E como o bagulho é doido foram mais de 2.030 homens que tiveram oportunidade de aprender a fazer arte em crochê na penitenciária, que tiveram também aula de preparação corporal e que logo foram florescendo, como Erick lá do começo, que nos brinda com uma das cenas mais fortes e sinceras do filme. A montagem dá uma tonalidade linear a O Ponto Firme e no começo de seu arco narrativo, Erick meio que não quer aparecer, tenta ficar fora do quadro. Logo vai fazendo uma transição sutil, pedindo pra ser filmado, calçando sapatos horrorosos tecidos pelo colega de cela ou vestindo animado a jaqueta onde costurou vários bichinhos de pelúcia – e que é uma das peças-chave da coleção.

Um dos detentos cria uma espécie de colar para uma blusa, quase uma joia feita de lã. “é uma expertise de manufatura muito alta”, diz, analisando e tocando na peça, a editora de moda do Glamurama, Erika Palomino. As intervenções de pessoas da indústria fashion quando postas em contato com a coleção são bem econômicas, o que é uma escolha inteligente até por não tratar como pitoresco o fato em si. Outro ponto positivo para o filme é que Silvestre evita falar diretamente para a câmera ou dar seu depoimento sobre o projeto; ele não tenta se colocar como aquele que está dando oportunidade, o que traz uma sinergia interessante para O Ponto Firme.

“Firmeza mano? Tamo junto até chegar a liberdade”, um deles fala para o estilista, dando um abraço meio de lado nele, quando todos, juntos, olham as fotos do ensaio de moda. O orgulho estampado nos rostos deles que ficam passando as fotos entre si e explicando para a câmera como escolheram cada cor, cada textura, montaram cada peça. Desde um simples gorro com abas até um intrincado vestido em ponto alto. São todos criadores, de corpo encarcerado mas livre pensamento. Se, para Rousseau, são a força e a liberdade que fazem os homens virtuosos, é possível acrescentar na equação sobre a essência humana mais uma palavra: a oportunidade.

Um grande momento
“Minha cor preferida é o verde, creio que é a cor da esperança (visivelmente emocionado). Vc é palmeirense? Sou.”

Fotos: Karla da Costa

Para informações sobre próximas exibições do documentário

Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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