Crítica | Festival

Ainda Estou Vivo

Resgatando o auto perdão

(Kapana, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: André Bomfim
  • Roteiro: André Bomfim, Larissa Kurata
  • Elenco: Alzimar Dantas Coelho, Elisabel Pappis Orso, Ivan Alves Dias, José Rodrigues Tejo, Marciano Alves da Silva, Marco Antônio Chaves da Silva, Maria Hercília Junqueira, Rogério Souza Araújo, Thiago Kincas de Souza
  • Duração: 87 minutos

É complexo o olhar para os personagens de ‘Ainda estou vivo’, não apenas pelo lugar social que eles ocupam, como pelo extrato que o diretor André Bonfim consegue amealhar de seus personagens, sem deturpa-los. As pessoas são o que são, e o filme não aparece para cumprir um papel de tábua moral de ações não sabidas. Esse é um dos aspectos mais ricos do filme, na verdade; na superfície, seus personagens exploram reações do público que, à primeira vista, não soariam positivas. Porém o que o longa procura vai além de questões morais – ele quer retratar uma situação de ressocialização através da recuperação da compaixão para com aqueles homens afastados do convívio social.

Um argumento de debate interessante seria de observarmos até que ponto o longa torna a tomar liberdades que já não existem, e retirar ainda mais camadas de seu íntimo, restando quase nada. Ao circular em um ambiente que precisa da confiança como rara moeda de troca, o autor pode configurar como invasão de invidualidades que já foram desnudadas pelas circunstâncias. Um trabalho que não é de pouca sutileza, essa aproximação entre criador e criaturas ali naquele imenso viveiro de cobaias é traduzido de maneira nada didática – sem demonstrar isso nem psicologicamente ou mesmo artisticamente, o jogo de “interesses” em cena beneficia o resultado final, que acaba contemplando a compreensão pela expressão de cada voz em cena.

Ao que nos afeiçoamos não é pelo recorte completo de cada indivíduo, mas das perdas que sentem cada um que tem sua liberdade vigiada, independente de ter feito por onde isso acontecer. Entendedores de suas situações e cientes de que estão onde deveriam estar, cada um de seus personagens não pede por reparação diante do que cometeram, mas que seja dedicado a eles um reencontro com seu próprio interior, e o que podem fazer para que a ressocialização abranja também a expiação de seus pecados. O cárcere é uma pena atribuída a quem falhou com a sociedade, e o que Bonfim dedica em seu filme é transitar pelo que pode ser feito com o que restou de suas consciências, sem pedir clemência pelos seus atos, mas desejosos de um olhar, por menos que o mereçam.

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Acompanhamos as atividades físicas e de rearranjo psicológico que esse grupo realiza em uma penitenciária de Rondônia, bem como os debates que eles levantam entre seus pares mas principalmente com as figuras de autoridade que os cercam, reiterando conflitos sempre de ordem interna, sem buscar o embate ou a violência explícita; isso ficou em cada passado. Isso não quer dizer que ‘Ainda estou vivo’ seja um filme pacífico em sua estratégia narrativa, porque tangencia situações de dor quase no limite do insuportável. Com muita inteligência, Bonfim nos coloca no centro de discussões onde são cobradas novo lugar para aqueles corpos quando libertos, em como a religião pode ser encarada como uma salvação à fórceps, e em como os jogos propostos aos personagens faz com que eles acessem lugares que acabam por violentar seu entorno, direto e indireto.

As cenas envolvendo a realização da prática de ‘constelação’ entre os personagens são particularmente dolorosas, tanto entre quem é filmado quanto para o próprio espectador, que é testemunha de momentos de impacto que acertadamente se esgarçam na montagem de Bruna Carvalho Almeida (‘Os Jovens Baumann’) e mostra, a um público menos afeito a observação técnica dentro da cinefilia, como a edição não é responsável apenas pelo ritmo de cada cena, mas por motivar no espectador os gatilhos mais variados, com a decisão de cortar ou não cada plano ou sequência. Em conjunto, o trabalho aqui de Bonfim e Almeida propiciam uma visão sem retoques dos danos eternos que cada um daqueles homens cometeu, independente de nos ter vendido sua humanidade ao longo de toda a duração.

Trabalho de coragem documental que faz excelente comunicação com a filmografia de Maria Augusta Ramos, ‘Ainda estou vivo’ é, além de um projeto dotado de sagacidade narrativa e melhor apropriação manipulativa dos elementos cinematográficos a seu favor, um material rico para estudo psicológico carcerário a respeito do perdão que muitos desses seres não conseguiu obter consigo mesmo. Chavão máximo, sabemos que apenas quando nos perdoamos conseguiremos fazer com que o próximo nos realize o mesmo, e aqui essa ideia parte de uma gama de situações que envolvem o trabalho braçal, as relações pessoais e o arrependimento com o que se cometeu para desembocar em um encontro brutal com o mal irrevogável que cometemos.

Um grande momento

Pai e filho

O crítico viajou ao 25° Cine PE – Festival Audiovisual a convite do evento.

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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