Crítica | Festival

Al morir la matinée

(Al morir la matinée, URU, 2020)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Maximiliano Contenti
  • Roteiro: Maximiliano Contenti, Manuel Facal
  • Elenco: Luciana Grasso, Ricardo Islas, Julieta Spinelli, Franco Duran, Pedro Duarte, Yuly Aramburu, Hugo Blandamuro, Daiana Carigi, Valeria Martínez Eguizabal, Lucas Fressero , Juan Carlos Lema
  • Duração: 88 minutos

Amantes do terror têm uma relação curiosa com o gênero, de acompanhar seu desenvolvimento, quase como um estudar a sua história involuntariamente. Ainda que se apegue mais a uma linha ou escola, o fã acaba passando por todas, reconhece as características, matrizes, origens. É justamente por isso que filmes de horror que escancaram nas referências já acertam de cara com seu público. Al morir la matinée é um desses.

Há originalidade na reverência de Maximiliano Contenti ao giallo, gênero italiano tão influente no cinema de terror que foi o grande influenciador de toda a onda slasher/splatter que dominou os anos 1980 e 90, e ao maior diretor uruguaio de horror dessa escola: Ricardo Islas (em corpo e criação), de maneira muito divertida. O espectador chega ao filme junto com o repugnante assassino, a recepção já não é atraente, mas aí ele mergulha nas cores do antigo cinema tomado por crianças e nas batidas hipnotizantes da música que trazem de volta Argento.

Al morrir a matinèe (Red Matinee)

Tramas paralelas, rápidas, apresentam os personagens com o fim antecipado pelo simples conhecimento de histórias do tipo. Há nostalgia no modo como a história é apresentada imagética e estruturalmente, no cuidado com a arte, com os ângulos e a própria sequência dos acontecimentos. Contenti fala também do próprio cinema, da sala escura, de elementos específicos que fazem parte de sua história.

Apoie o Cenas

E no fundo, Al morir la matinée está ali, todo empenhado em seu banho de sangue, em sua elaboração visual de mortes, em final girls, mas no fundo quer falar da morte de uma outra coisa. E nem é do cinema em si, porque quando ele fez o filme ainda não tinha a Covid para elaborar um outro contexto que quebrou as pernas também dos multiplex. Contenti fala da morte do cinema de rua, desse cinema onde as matinées existiam.

Al morrir a matinèe (Red Matinee)

Não à toa, o nome original quer dizer quando morrer a matinée. O cinema com seu lanterninha, o projecionista colando a película às pressas, a bilheteira que já conhece todo mundo, o espectador que não vai sair para pagar pela próxima sessão, o menino que se esconde depois da matinée para ver o filme dos adultos na sessão seguinte, e outros que seguem existindo ainda hoje. E a metáfora de Contenti se fecha no objeto de desejo do personagem que primeiro conhecemos, seus suvenires.

Al morir la matinée se baseia na nostalgia do espaço e da própria cinefilia. É bonito ver como o diretor consegue costurar o giallo e suas atualizações a Islas de maneira respeitosas sem deixar de dar o seu toque pessoal. Há muita repetição, por óbvio, mas há um resultado original. Talvez nem todos os elementos consigam se encaixar muito bem e o final seja menos empolgante do que o começo, mas não deixa de ser uma experiência divertida e interessante.

Um grande momento
Balinhas na escada

[35º Festival de Cine de Mar del Plata]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
Botão Voltar ao topo