Crítica | Festival

All My Friends Hate Me

O constrangimento de não ser

(All My Friends Hate Me, GBR, 2021)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Andrew Gaynord
  • Roteiro: Tom Palmer, Tom Stourton
  • Elenco: Tom Stourton, Georgina Campbell, Christopher Fairbank, Joshua McGuire, Antonia Clarke, Dustin Demri-Burns, Charly Clive, Kieran Hodgson, Graham Dickson
  • Duração: 93 minutos

Pete é aquele estereótipo do britânico, travado, inseguro, desajeitado, meio sem graça. Junte aí algumas pitadas da estrutura clássica da persona do macho que quer resgatar alguma coisa da juventude para não sentir que o tempo passou e eis então o protagonista de All My Friends Hate Me. Os comediantes Tom Palmer e Tom Stourton pesam a mão no roteiro e, junto com o jogo constante de idas e vindas do diretor Andrew Gaynord, fazem o personagem, vivido pelo próprio Stourton, ir até o inferno naquela que seria a grande comemoração do seu aniversário com os amigos.

Entre a comédia, o suspense e o horror, o constrangimento e o embaraço são os sentimentos que guiam a trama. Apresentado de maneira dúbia, e isso está inclusive na decupagem da primeira sequência, Pete é o tipo de personagem que conquista o espectador pela falta de jeito com tudo. A sua “louca escapada” da vida adulta é uma sequência de situações absurdas que vão de encontro zumbi à revelação do trauma mais profundo, passando por todo tipo de suspeita, contrariedade e desajuste. Ele é aquele ser que está lá, mas cuja inadequação é evidente, não se encaixa e transfere seu desconforto, aos que dividem o espaço, eles, e aos que testemunham sua presença, nós.

Metáfora interessante do amadurecimento, All My Friends Hate Me transforma a eterna busca pelo passado e pela juventude em uma reunião com os amigos da escola. Ironicamente, ela acontece numa antiquada mansão aristocrática afastada de tudo, corroborando um jogo entre o “juvenil” e o “maduro” que dura o filme inteiro. O roteiro, embora tenha os seus momentos de facilidade, e aqui podemos falar de boa parte da relação do protagonista com sua namorada, tem passagens inspiradas. A chegada de Pete no local, após toda a excitação da viagem, é genial, tanto por abrir o caminho alegórico como por iniciar o jogo de indeterminações que se seguirá a partir dali. Entre tantas coisas não ditas, anotações misteriosas e informações fora do contexto, nem Pete e nem o público saberá dizer o que realmente está acontecendo.

All My Friends Hate Me
Courtesy of Tribeca Film Festival

Embora a estrutura já seja tradicional no teatro e não seja nenhuma novidade no cinema, Palmer e Stourton demonstram habilidade ao trabalhar com o suspense. Em seu microuniverso povoado de personagens, percebe-se um desequilíbrio evidente na atenção dada a alguns, inclusive, há uma dificuldade bem esquisita de se aprofundar nas personagens mulheres. Ao mesmo tempo, se destaca a construção da relação antagônica e o peso que ela, mesmo que com toda imprecisão proposital das motivações, dá ao metafórico. Harry, vivido por Dustin Demri-Burns, é tudo aquilo que Pete não consegue ser. Ou, melhor dizendo, que a imagem que Pete criou de Harry é a de alguém que ele nunca conseguiria ser.

Gaynord aproveita bem o muito espaço que tem à disposição. Seja no exterior da propriedade ou dentro da casa, ele vai criando campo para seus pequenos “embates”. O diálogo rápido no topo da escada, o desabafo com choro em frente ao janelão e a revelação na copa se contrapõem às cenas de reunião onde o deslocamento do personagem principal é muito evidenciado. O contrassenso valida sentimentos e reforça teorias, coisa que ele vai apimentando com a fotografia e a trilha sonora. O diretor também está confortável com o humor e tem um bom controle do elenco.

Ainda que não seja uma obra perfeita, e tanto os roteiristas quanto o diretor tenham suas questões a resolver com as mães ou outras figuras femininas, All My Friends Hate Me tem tanta coisa no lugar certo e sabe lidar tão bem com sua proposta que é difícil não se entreter com ele. Afinal de contas, todo mundo um dia já fez essa viagem de Pete em busca de um lugar que não existe mais e em busca de alguém que, na verdade, nunca existiu. Deve ter sido um pouquinho menos traumático, com menos desespero, talvez, mas o encontro final foi o mesmo.

Um grande momento
Um cachorro e um carro abandonado

[2021 Tribeca Film Festival]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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