Crítica | Cinema

AmarAção

Ideias interrompidas

(AmarAção, BRA, FRA, ISR, 2020)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Eric Belhassen
  • Roteiro: Eric Belhassen, Marc Belhassen
  • Elenco: Caco Ciocler, Eric Belhassen, Martha Nowil, Ana Carolina Godoy, Clarice Abujamra, Luisa Micheletti
  • Duração: 88 minutos

Os resquícios do fim de um amor sempre podem trazer elementos para uma comédia romântica. A ideia fixa nos bons ou maus momentos, as tentativas de fuga da dor e as comparações com os casais amigos são usuais no subgênero quando se trata da temática. AmarAção tem tudo o que precisa, mas não consegue encontrar um caminho para fazer o filme se concretizar.

Dirigida e protagonizada por Eric Belhassen, que assina o roteiro com seu irmão Marc, a produção não faz nenhuma questão de esconder o seu caráter caseiro. Franceses que são, fazem no título o trocadilho com a dificuldade de pronunciar o dígrafo dos “trabalhos” para manter o amor de alguém. O prenúncio da ingenuidade equivocada.

AmarAção

A trama tenta assumir o tom das comédias românticas francesas e até desperta uma certa curiosidade quando, ao estabelecer o mistério com a paixão do protagonista, cria uma dubiedade entre os personagens de Belhassen e Caco Ciocler, mas nada que dure por muito tempo. Este, aliás, é um problema recorrente de AmarAção. As ideias são muitas, algumas boas, mas todas são aproveitadas pela metade, sempre interrompidas por eventos ou cortes impertinentes.

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A indefinição não é apenas no andamento do roteiro, no ritmo da trama ou mesmo na constituição dos personagens, ela também está na linguagem. Belhassen começa o filme dizendo ao espectador que seu personagem tem o poder de interferir na trama, depois se esquece disso para, mais tarde, quando é conveniente, lembrar novamente. Outras vezes, do nada, ele quebra a quarta parede, algo que até faria bem a uma trama tão identificável, mas, de novo, algo que não dura.

AmarAção

Para completar, há o incômodo apanhado de equívocos com a tentativa de associação da obsessão do luto amoroso com a “amarração” do título. Não que a ligação não seja algo comum, mas com a conotação dada, deveria ser feita? A coisa fica um pouco mais complicada quando se abre espaço para que haja uma relação com outra religião. Já que começamos a falar de contexto, a relação do roteiro com as mulheres também é errática. Ora percebe-se uma preocupação em romper com padrões, ora volta-se às velhas determinações.

AmarAção é o típico processo que precisava de mais etapas e, também, de mais dinheiro. Tem, sim, muita coisa interessante e que seria incrível se bem aproveitada, mas o roteiro precisava de consultoria e mais tratamentos, e a montagem, uma melhor definição. Mas merece créditos pela garra de conseguir chegar lá nas condições que tinha. 

Um grande momento
Quem é ela?

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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