Crítica | Festival

Aos Pedaços

(Aos Pedaços, BRA, 2020)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Ruy Guerra
  • Roteiro: Ruy Guerra, Luciana Mazzotti
  • Elenco: Julio Adrião, Emílio de Mello, Simone Spoladore, Christiana Ubach
  • Duração: 93 minutos
  • Nota:

Outro dia, um colega da crítica comparou: “Ruy Guerra é o nosso Godard”. Creio nunca ter olhado paralelamente a essas duas carreiras, mas talvez a comunicação tenha algum fundamento, afinal. Como o contemporâneo colega francês, Ruy vem de um movimento dos mais importantes de seu país e envereda, a cada ano, em projetos cada vez mais experimentais, sensoriais, abstratos e muito mais subjetivos que a própria ideia de apreciação do cinema já remete. Estorvo e Veneno da Madrugada diferem do cinema que Os Fuzis e Os Cafajestes representavam nos anos de 1960, mas a válvula do cineasta de hoje já estava acionada.

Aos Pedaços, já pelo título, investe na provocação desconstruída de uma personalidade literalmente cada vez diluída e compartimentada. Em cena, Emilio de Mello investe em solilóquios diretos onde sua mentalidade fragilizada evoca sua multiplicidade, seu desespero e sua teatralidade, mostrando o olhar de Guerra que há alguns anos flerta com o palco e suas possibilidades. Movendo-se pela busca constante por uma dramaturgia fragmentada unindo duas áreas artísticas aparentemente apartadas, o diretor promove um encontro entre elas, entre a sanidade e a ilusão, e entre jogos de cenas, que o cinema e o teatro promovem de maneiras diferentes.

Aos Pedaços (2020)

Com fotografia brilhantemente assinada por Pablo Baião (que tem experiência com Guerra em particular com Quase Memória e com o cinema experimental, com Julio Bressane em Beduíno e Educação Sentimental), o cineasta define na sua luz acinzentada do acertado preto e branco escolhido, e mantém com isso um estado permanente de difuso delírio narrativo, entre as sombras que passeiam entre uma marcação muito assertiva, radicais e cortantes por sobre cenários e atores, internas e externas, e o extremo oposto desfocado, inebriado e que embaça os sentidos.

A fumaça dos cigarros reincidem esse estado cambaleante da atmosfera em Aos Pedaços, perdida em um lugar de torpor alcoolizado que desnorteia não apenas o protagonista, mas principalmente o espectador. Mas é essa realmente a intenção, não apenas desse filme em particular como da obra recente de seu realizador, que desconecta realidade, sonho, ficção, imaginação, e até – como nesse caso específico – os escombros delirantes da mente humana, e talvez só a experimentação múltipla permita as ferramentas necessárias para desdobrar caminhos infindáveis que o cinema clássico-narrativo não ousa responder, não com essa aposta no risco.

Aos Pedaços (2020)

Com uma proposta de encenação liberta e sem freio, Guerra permite a seu quarteto de atores mergulhos intensos na psique desses personagens no limite da realidade, e além dela. A superfície teatral da obra também abre espaço para performances destemidas, e além de Emilio, Julio Adrião, Christiana Ubach e Simone Spoladore tem momentos especiais em cena, especialmente a última; atriz que já passou por muitas provações estilísticas, de Lavoura Arcaica a Ralé, passando por Desmundo e Elvis e Madona, Simone entende em absoluto seu ofício e sua personagem(ns), dando ao filme sua característica mais acessível – é ela quem fornece organismo à simbiose de sentidos pensada por Guerra.

Quanto mais Aos Pedaços invade as dúvidas e angústias de Eurico, mais atordoante se transforma a epopeia mental de sua proposta, que transmuta atrizes, ações e cenas. Atormentado com uma possibilidade de morte sem encontrar intenções, o protagonista também ele se posiciona no limiar da ignorância dos eventos; “os novos estão chegando” – próximo ao fim, Guerra coloca na boca de seu personagem a possibilidade de alter ego. Sim, diretor, os novos estão chegando, mas você demonstra aqui o vigor lá de 50 anos atrás, retirando barreiras que separam o artifício do naturalismo e permitindo esse jogo de cena arriscado permitido pela loucura assumida.

Aos Pedaços (2020)

Às vésperas dos 90 anos, Ruy Guerra retoma a relevância não apenas com seu nome ou com sua filmografia pregressa, mas com uma produção que desafia as convenções de um circuito vitaminado pelo oposto de sua realização, sem nunca deixar de fazer sentido a quem minimamente aceitar o embriagamento, que vai do torpor do protagonista até a desconexão de suas ideias, como se clamasse “eu exijo mais!”.

Nota: 3.5

Um grande momento
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[48º Festival de Gramado]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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