Crítica | Cinema

As Verdades

Tudo têm muitos lados

(As Verdades, BRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: José Eduardo Belmonte
  • Roteiro: Pedro Furtado
  • Elenco: Lázaro Ramos, Bianca Bin, Drica Moraes, Edvana Carvalho, Thomás Aquino, Zécarlos Machado, Tânia Tôko, Cássia Valle
  • Duração: 103 minutos

“Dentro do Bosque” é um conto escrito por Ryunosuke Akutagawa e publicado em 1922, que inspirou Akira Kurosawa em seu clássico Rashomon. Com toda certeza, José Eduardo Belmonte não tinha as pretensões de alcançar um dos maiores mestres da História do cinema em um dos seus clássicos definitivos, mas ‘As Verdades’, que estreia essa semana nos cinemas, bebe do mesmo conto, e é preciso saber com exatidão onde essa estrutura se encontra. O roteiro de Pedro Furtado bifurca uma trama policial em três (serão só três?) versões para a elucidação de um crime, tal qual o conto e o filme fizeram. Essas peças estão mais em cena, aqui, para delongar as personalidades de seus interlocutores, e a forma como eles são vistos por outrem, do que necessariamente para revelar os fatos da exata maneira como aconteceram. 

Está aí o pulo do gato do roteiro, e da condução de Belmonte, no segundo acerto do ano, após Alemão 2 (e será que teremos O Pastor e o Guerrilheiro, ainda em 2022?). A verdade, como todos sabemos, é relativa e subjetiva; agrada a cada um de maneiras diferentes, e abarca seus participantes, sempre a protegê-los com seus argumentos. A melhor maneira de tirar partido de uma situação desconhecida, então, é observar os contadores, muito mais do que as histórias levantadas por cada um. Através dos olhos de quem vê, da forma como vê, e até mesmo os relevos realçados por cada um sobre os outros, desenvolvemos então um quadro geral que pode até não solucionar um crime a contento, mas recheia uma narrativa com personalidades fascinantes. 

As Verdades
Taylla de Paula

Belmonte sabe como filmar aquele município baiano afastado, que parece ter uma mínima quantidade de habitantes, daqueles onde todos se conhecem. Ele compreende a geografia do lugar e sabe dar textura aos espaços, dinamizando os terrenos e impondo diferentes absorções para cada um dos cenários, sejam a delegacia, a casa da protagonista com sua mãe, o afastado bar de beira de cais, ou mesmo o terreno acidentado onde ocorre o crime. Ao longo dos anos, o autor se viu fluir de um cinema experimental produzido na capital do país (A Concepção) até absorver essa atmosfera mais comercial, com uma transição difícil que hoje parece plenamente concluída. Tudo o que vemos em As Verdades não se assemelha a seus experimentos iniciais de gênero, mas sim com um entendimento próprio de uma máquina que precisa ser bem manuseada. 

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O que não impede, por exemplo, um dado que é de dificuldade conhecida por qualquer cineasta, a manutenção do tempo. Não sabemos exatamente em quanto tempo se passa as ações do filme, o tempo em que o atropelado fica internado no hospital parece flutuante, e o roteiro não dá conta de abarcar essas situações a granel em um ponto mais fixo. Aos poucos, o filme leva uma ideia de entorpecimento temporal até o espectador que pode até ser proposital, mas que nunca fica muito bem esclarecida para além de uma teoria imaginada. O que está impresso é essa confusão de tempos, datas, em que ponto dois anos se tornaram tão elásticos assim, e porque tão rapidamente pessoas foram até polos tão distintos, a ponto de termos a certeza que só era necessário declarar uma passagem maior de duração entre os eventos, e nem estou falando apenas do extra-filme. 

As Verdades
Taylla de Paula

Para longe dessa imprecisão temporal, no que concerne o desenvolvimento dos tipos produzidos para o filme, além das próprias qualidades fílmicas (a trilha de André Luiz Machado emoldura tão bem a ação, uma característica que não costuma ser tão marcante quanto deveria no nosso cinema), As Verdades está acima da média do que o mercado produz. E nem podemos considerá-lo exatamente um filme feito em linha de produção, dado o meticuloso trabalho encampado pelos seus profissionais. A fotografia a cargo de Marcelo Corpanni (de Bruna Surfistinha), que incorpora as cores locais à profundidade de sua luz, inclusive acertando na angulação dos enquadramentos que definem o tom de cada cena, também corresponde a um acerto. Assim como a arte de Dani Vilela (de Bacurau), que de maneira minimalista, traduz cada personagem e suas emoções, principalmente a casa de Francisca e sua mãe. 

Para um trabalho tão esmerado, Belmonte não poderia contar com um elenco que não se apoderasse de cada nuance que é apresentada, a cada novo bloco de narrações. Nesse apontamento, Bianca Bin (de Canastra Suja) e Thomás Aquino (de Curral) são claros destaques, movendo suas intenções para onde pede o roteiro, sem jamais perder o norte. Lázaro Ramos também mostra sua experiência em um personagem difícil, o condutor da ação que também perde um pouco de si pelo caminho. No entanto, são de Drica Moraes (de Rasga Coração) e Edvana Carvalho (de Receba!) os momentos mais recheados de sinceridade em cena. Ambas repletas de ambiguidade, desfilam pelo filme as percepções acertadas a respeito do que está sendo contado em cena: o resultado de muitas verdades onde nenhuma jamais será absoluta, e todas estarão sempre camuflando sentidos de humanidade dos mais diversos. 

Um grande momento
Sâmia e Amara 

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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