(Manbiki kazoku, JAP, 2018)
Drama
Direção: Hirokazu Koreeda
Elenco: Lily Franky, Sakura Andô, Mayu Matsuoka, Jyo Kairi, Miyu Sasaki, Sôsuke Ikematsu
Roteiro: Hirokazu Koreeda
Duração: 121 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

A construção do amor e do afeto pode estar vinculada a coisa condenáveis. Há meios de se envolver e se relacionar que estão completamente em desacordo com aquilo que se estipula como aceitável e é isso que Hirokazu Kore-eda quer explorar com seu novo Assunto de Família. O filme, dirigido e roteirizado por ele, ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2018, além de vários outros prêmios, e é o indicado do Japão para concorrer a uma das vagas aos indicados de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2019.

O longa, como outros títulos do diretor, acompanha o cotidiano de uma família diferente daquilo que a convenção estabelece. Aqui, um casal, a velha senhora que os abriga em sua casa, uma jovem e um menino passam o dia em atividades estranhas. O pai ensina ao filho aquilo que sabe fazer de melhor: furtar artigos em supermercados ou pequenas mercearias; a mãe, a única com um emprego formal, recolhe objetos esquecidos em roupas na lavanderia do patrão; a jovem sensualiza em cabines secretas; e a idosa vive de doações de parentes com quem tem pouco contato.

Em uma noite, o casal vê uma menina bem pequena que parece maltratada pelos pais e resolve acolhê-la. É na inclusão dessa nova integrante que as relações se revelam e os personagens começa a questionar seus hábitos. Mesmo que não efetue qualquer juízo de valor sobre aquilo que expõe, Kore-eda tem a intenção de provocar a reflexão no espectador. São ações facilmente condenáveis, mas há todo um espectro de carinho e cuidado que vai se construindo junto com aquelas relações.

Como sempre, o cuidado de Kore-eda com as imagens salta aos olhos e intensifica essa sensação de contradição. Até o momento da virada do roteiro, assim como na constituição do universo imaginado, aquilo que se construiu não pode mais ser desfeito. O improvável torna-se suportável, o vínculo com aqueles personagens torna-se real, e ansiedade pelo futuro de cada um deles se estabelece.

Assunto de Família separa seu caminho em dois: apresentação e consequência. A forma, afetuosa em todo o filme, afasta-se do melodrama familiar para dar espaço a uma espécie de drama policial, com depoimentos, acareações e inserções jornalísticas, que confirmam algumas suspeitas e revelam aquilo que ainda não se sabia sobre a história. O diretor faz pequenos resgates à primeira parte e alcança de forma incisiva o sentimento contraditório que buscava desde o início.

Embora acerte na maior parte do tempo, principalmente na criação dessa dinâmica entre todos os personagens, o longa tem alguns momentos menos inspirados, especialmente em sua última parte. Mas é tão interessante no despertar de uma outra configuração da realidade, tão provocador no explorar do amor incondicional, que qualquer deslize desaparece.

Um Grande Momento:
Na praia.

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