Crítica | Festival

Atlântida

Um belo nada

(Atlantide, ITA, FRA, EUA, QAT, RUS, MEX, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Yuri Ancarani
  • Roteiro: Yuri Ancarani
  • Elenco: Daniele Barison, Bianka Berényi, Maila Dabalà, Alberto Tedesco, Jacopo Torcellan
  • Duração: 100 minutos

Tem algo ali por trás de Atlântida que genuinamente interessa. Talvez seja uma certa falta de expectativa da juventude sem espaço, ou a contraposição dessa mesma juventude em um lugar marcadamente antigo e afeito a tradições, ou mesmo um ambiente que está mais interessado naquilo que não é seu. Cada uma dessas hipóteses está representada no longa de Yuri Ancarani em momentos específicos e todas elas atraem nossa atenção, puxando um lapso de tentativa de entendimento do filme, mas nada que dure muito tempo. É um interesse que se esvai com a água, na mesma velocidade da lancha do protagonista Daniele e numa quantidade inversamente proporcional a das ondas geradas.

Que o diretor filma bem ninguém pode negar, mas isso ficaria bem em clipes, algo que inclusive casaria com as muitas músicas eletrônicas que ele seleciona para a sua trilha musical. Para o telão de uma rave, por exemplo, o filme seria perfeito. Mas falta a Atlântida um roteiro que lhe dê consistência. Partindo do naturalismo, escolhendo um personagem, vivido por um não-ator, para guiar uma pseudo-narrativa, o longa vai seguindo dias na construção de uma não jornada, acumulando passagens aleatórias que criam um cotidiano desinteressante e pouco fluido.

Atlântida
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema Cortesia Mostra SP

Dentre as figuras, estão aquelas que despertam algum carisma, geralmente as que são completamente descoladas da “trama” e surgem como elementos ilustrativos da realidade do local, no registro documental daquela Veneza; as que surgem e somem sem tempo de criar qualquer vínculo, como os seres que parecem brotar aleatoriamente na lancha do protagonista (e aqui temos questões com a representação da mulher, vamos dizer) e o próprio e suas relações mais próximas, em especial sua namorada, aquela que nos permite conhecer um pouco mais sobre ele e, nada surpreende, esse pouco mais também é vazio.

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Como se não bastasse a desconexão e o desinteresse por tudo que está além do visual, Atlântida em seu descompasso e excesso também se desengata de si mesmo e resolve se transformar. Não que tenha a intenção de solucionar algo ou encontre algum fio de roteiro perdido, apenas abandona o tom de clipe musical para buscar alguma coisa entre a ação e a melancolia e mais uma vez se atrapalha, ou melhor, mais uma vez se mantém atrapalhado. E não adianta ter as mais belas tomadas, estar no lugar mais incrível do mundo, se tudo o que você consegue mostrar, indo ou voltando, é nada.

Um grande momento
Transatlântico

[45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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