Crítica | Festival

Antígona 442 A.C.

Tragédia nossa

(Antígona 442 A.C., BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Maurício Farias
  • Roteiro: Andréa Beltrão
  • Elenco: Andréa Beltrão
  • Duração: 70 minutos

“Porém, repetir uma história
É nossa profissão, e nossa forma de luta.
Assim, vamos contar de novo
De maneira bem clara
E eis nossa razão:
Ainda não acreditamos que no final
O bem sempre triunfa.
Mas já começamos a crer, emocionados,
Que, no fim, o mal nem sempre vence.
O mais difícil da luta
É descobrir o lado em que lutar.”

Millôr Fernandes

Há 2.463 anos a história de Antígona, último nome da amaldiçoada linhagem dos Labdácidas, é contada. Filha e irmã de Édipo, ela é condenada à morte por descumprir as ordens do tio e futuro sogro, Creonte. Seu crime: enterrar o irmão Polinices. Tragédia escrita por Sófocles, Antígona mantém a atualidade e uma grande capacidade de adequação a outras realidades por levantar questões que fazem parte da sociedade e do indivíduo: o poder instituído que suplanta os interesses populares, a determinação arbitrária e o enfrentamento natural, e mais uma penca de oposições, como público e privado, direito positivo e direito natural e por aí vai. Dicotomias pertinentes por aí no mundo e ainda mais para nós, aqui nesse imenso pedaço de terra chamado Brasil. Tanto, que não foram poucas as vezes que a peça foi encenada nos palcos brasileiros. 

Antígona 442 A.C.
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema Cortesia Mostra SP

Estávamos no meio de um golpe parlamentar, aquele que derrubou uma presidenta democraticamente eleita para estancar a sangria. Temer era o presidente e o país estava se encaminhando para o buraco moral, econômico, cultural. Naquele momento, imaginávamos estar próximos ao fundo do poço. Se a pior dor é a que se sente e acreditando que ninguém gostaria de repetir passados sombrios, não parecia mesmo lógico nem possível descer muito mais. A ignorância… foi lá que Andréa Beltrão e Amir Haddad resolveram levar ao palco a adaptação do texto, baseada em uma versão traduzida pelo grande Millôr Fernandes.

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A tragédia grega tem isso de adequar sua pertinência, e ali cabia bem. À época, no tablado, a atriz sozinha dava conta de toda a história, amparada por uma árvore genealógica bem simples como único cenário. Hoje, cabe ainda melhor, e, em tempos pandêmicos, Maurício Farias volta ao teatro vazio, aos bastidores e à própria Beltrão. Mantém-se o texto e sua potência, e assimilam-se comentários da intérprete que contemporanizam a obra e dados que enriquecem ainda mais a trama. Máscaras – essas hoje fazem parte do nosso guarda-roupa e não as gregas – marcam o período e o diretor vai criando uma colagem que torna o combo ensaio-apresentação um conjunto inescapável.

Antígona 442 A.C.
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema Cortesia Mostra SP

Brilhando na tela, Andréa Beltrão. Da complexidade dos eventos de Sófocles, com todo o seu drama rasgado, à simplicidade da mulher cidadã que enxerga e expõe suas análises acerca da sociedade, falando sem complicações com a câmera, Antígona 442 A.C. se estabelece em dois universos que coexistem muito bem e se complementam. Ela, a intérprete domina os espaços cênicos, o do passado e o do presente, pega o público pela mão e o deixa ansioso pelos próximos acontecimentos, esteja vestida ou despida dos personagens. E a colagem de Farias, que recupera visuais e estéticas de 2017 para abandoná-las em seguida, é importante para todos os envolvidos.

Assim, ficamos os 70 minutos entre o palco e a sala, entre figurinos e não-figurinos, entre personagens e a atriz descobrindo uma tragédia que tem seus muitos mais de dois mil anos mas é tão nossa e tão atual. Antígona 442 A.C. é sobre o teatro, o poder o texto e das palavras e a grandiosidade de Beltrão, que é sim gigante, mas também é sobre isso, um Brasil eternamente perdido nos mais pesarosos, desastrosos e patéticos dramas sofoclesianos.

Um grande momento
O primeiro castigo de Tiresias

[45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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