Festivais e mostras

Berlinale 2021: Luiz Bolognesi levanta a bandeira do cinema brasileiro

Pouco antes da exibição de seu filme num anfiteatro a céu aberto e localizado dentro de um parque do bairro de Neukölln, o diretor Luiz Bolognesi conversou com exclusividade com o Cenas sobre seu novo filme, resistência, quebra de protocolos e o poder da voz das mulheres indígenas. 

O dia, 19 de junho, foi histórico por vários motivos: a cidade contabilizava 37°C — tornando o decorrer do nosso dia um grande desafio, além de lacrar a data mais quente do ano –, o Brasil alcançava a trágica marca de 500.000 mortes pelo Covid-19 e Luiz se encontrava em presença física em Berlim como o único representante do cinema brasileiro. Lembremos que, no ano passado, em um papo descontraído com o Cenas, a jornalista Flávia Guerra denominou a Berlinale 2020 como “Brasinale”. Em 2021, depois que o mundo capotou, só sobrou um para contar a história: de um país e de um extermínio contra a população indígena. O Zeitgeist tem um senso de humor ímpar.

Pedro J. Marquez (diretor de fotografia), Luiz Bolognese (diretor) e Talita del Collado (compositora) na première de A Última Floresta na Berlinale 2021: Edição Especial – © Fátima Lacerda

Um coqueiro por dia 

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Cheguei antes do horário marcado para montar o tripé e acertar tudo para, quando Luiz chegasse, tomar o menos possível de seu tempo.

Esbaforida pela dinâmica do dia, cheguei na hora em que o cinema ainda estava completamente vazio, o ar quente, a falta de brisa e o percentual mínimo da bateria do celular eram meu maior desafio para seguir no foco e manter a containance

Depois de fazer várias fotos, quando chegou onde estávamos, incluindo Pedro, o diretor de fotografia e Talita, a compositora da trilha sonora, o diretor foi atencioso e profissionalíssimo. Iniciamos a entrevista sem profiling. É muito bom trabalhar com profissionais assim. 

A entrevista foi feita em duas partes, dividida por um intervalo para fotos posadas com o fotógrafo do festival, algumas com o diretor da Mostra Panorama. Luiz era só agradecimento à equipe do festival, pela escolha do filme algo que já fornece à obra um selo de qualidade.

Mesmo com a lotação do cinema reduzida, devido às medidas restritivas da pandemia, o interesse pela temática do extermínio da população indígena, junto à fome de informações sobre que acontece no Brasil fora da mídia estabelecida, era palpável no ar numa noite quente do verão berlinense, como Luiz propriamente resumiu na entrevista em vídeo: uma cidade completamente diferente da Berlinale do inverno.

O cinema ao ar livre nunca foi e nunca será a minha praia. Muitas distrações são um corta-prazer no ritual de exercer o consumo visceral-intelectual-afetivo da Sétima Arte, mas no cinema, durante a projeção de “A Última Floresta”, com pouquíssimas exceções, a concentração era boa, apesar do calor arábico e do filme se esquivar de quaisquer ferramentas de entretenimento. Existem momentos bem específicos que saltam aos olhos, especialmente quando o roteiro, que nada na rebeldia contra a linearidade, deixa as imagens falarem, imagens essas que são trazidas com a sensibilidade do olhar de Pedro J. Marquez. Ele concede aos protagonistas profundidade filosófica ao mesmo tempo em que nos presenteia a retina com nuances de extrema beleza estética: as rugas na face do xamã, a lasca de tinta azul que vai até a orelha ou o olhar da índia que acaba de constatar ter perdido seu guerreiro. 

A Última Floresta é um mosaico que exibe o que está ameaçado de extinção: pelo garimpo clandestino, pela vista grossa das autoridades e pela falta de vontade política do atual desgoverno que sequestrou o Brasil.

Nos países que Luiz Bolognesi vier a visitar com o filme na bagagem, ele atuará ao mesmo tempo como embaixador e testemunha, e o filme como um documentário histórico. 

A Última Floresta
A Última Floresta, de Luiz Bolognese / Foto: Divulgação

Você declarou que ficou morando com os índios na aldeia para decidir juntamente com eles que história contar e que ajudou a quebrar protocolos. Como foi esse tempo? 

Ele começa com uma espécie de um desequilíbrio, de um desajuste de informação. Não tínhamos telefone, nem internet, nem iPhone. Num primeiro momento, você fica perdido com o excesso de não informação. O barato é que, conforme os dias vão passando, na viagem de vida deles, você nota que o mundo está repleto de informações. O tempo todo eles estão vendo as coisas acontecendo: formigas que vem daqui pra lá, um determinado vento que tem um determinado significado, e você começa a entrar nessa jornada. Seus níveis de ansiedade e de estresse começam a desabar e você começa a se “transformar num indígena”, ou seja, presença de espírito no presente (…) algo que a civilização perdeu. A gente está sempre programando um futuro, um daqui a pouco” (…) a agenda coordena as nossas vidas e isso nos transforma numa bomba de ansiedade e estresse. (…) Nos anulamos o tempo todo. (…)

O fato deles não planejarem, é uma decisão civilizatória, é um modo de existir que combina com o modo econômico deles. (…) Essas nações indígenas, que quando os europeus chegaram eram 1000 e hoje são cerca de 300, estão há 4000 anos vivendo em regime de fartura, de carboidrato, de proteína, de cosmogonia, de transcendência filosófica e mitológica sem destruir, em harmonia. (…) Eles fazem parte, eles não são os donos. Eles pertencem à terra. É muito fácil se integrar a esse modo de viver, dormir feliz de noite e ter um dia pleno. E na hora que a jornada de trabalho acaba, você vai tomar banho num córrego (…) com uma água cristalina, com várias pessoas dando risadas e contando coisas que aconteceram ao longo do dia. O filme buscou isso. 

A Última Floresta, de Luiz Bolognese
A Última Floresta, de Luiz Bolognese / Foto: Divulgação

Você não escreveu o roteiro sozinho

A primeira atitude, e a mais acertada, foi convidar o Davi (Kopenawa Yanomami) que é um grande xamã yanomami não apenas para ser o protagonista, mas ser o autor do filme e isso fez com que decidíssemos juntos, qual história iríamos contar.

E sobre a quebra de protocolo?

Me disseram que não fazia parte da tradição yanomami que uma mulher estivesse nesse lugar de decisão. Só que eu conheci a Yehunana, que me procurava todos os dias, fiquei encantado por ela e ficamos amigos. (…) Ela me contava muitas histórias do ponto de vista feminino, de uma mulher que perdeu o guerreiro/companheiro e que vivia toda uma jornada de construir sozinha e estava numa trilha de liderança feminina nova ali dentro. Então propus ao David que nós contássemos a história dela. O Davi ouviu, quis entender porquê que eu estava colocando isso.  Eu disse pra ele que as mulheres estão se transformando em todos os lugares, também aqui dentro, e ele acolheu com muito carinho e afeto. A Yehuana virou uma protagonista importantíssima no filme. (…) Ela, de fato, está montando uma ONG dentro do território Yanomani, que é uma ONG das mulheres que organiza a voz, a luta, a questão da identidade delas à parte, sem estar à sombra das lideranças masculinas.

Os indígenas têm um interesse intrínseco pelo outro. Diferente da nossa atitude de conquista, de dominação

Você é conhecedor de vários povos indígenas. Esse acolhimento por parte do David é algo que você já vivenciou em outras tribos? 

Os indígenas têm um interesse intrínseco pelo outro. Diferente da nossa atitude de conquista, de dominação (…) eles se encantam com os encontros, querem aprender, saber. (…) Eles estão muito abertos para ouvir novidades e se transformar. A maneira que os povos indígenas do Brasil sobreviveram a esse genocídio foi um processo de muita metamorfose, de muita assimilação de valores culturais dos brancos, a antropofagia para poder sobreviver. (…) A questão da força feminina nos povos indígenas não é uma novidade. Ela está extremamente forte, no Xingu, nos Guarani, em vários povos. Inclusive com mulheres se tornando Líderes tanto em comunidades nas quais isso já era tradição e em outras, onde isso era proibido. 

Você mencionou que só o fato do filme ter sido anunciado em Berlim, já rendeu inúmeros convites para outros festivais. Você viajando com filme, é um fato de esperança que você leva na mala ? 

A gente está num momento de muita angústia, num momento de muito retrocesso. É inacreditável que no século XXI os indígenas estejam com 21.000 garimpeiros invadindo um território legalmente demarcado, destruindo tudo. A Polícia Federal, o Exército do Brasil, nos últimos 20 anos cumpriam a lei, aliás, com muita eficiência. Desde que entrou o governo Bolsonaro, as forças armadas e a Polícia Federal se omitem em cumprir suas funções. Ele (Bolsonaro) transformou a FUNAI numa instituição anti-indígena. É muito assustador. 

O filme é o que o Davi pediu: que ele seja a voz do povo Yanomani pelo mundo. Ele inclusive dizia que o filme iria viajar o mundo, algo que eu não sabia. A Última Floresta acabou de ganhar um prêmio na Coreia, teve na Nova Zelândia, encerrou o  É Tudo Verdade. 

A Última Floresta, de Luiz Bolognese / Foto: Divulgação

Depois da exibição na noite de sexta-feira (19), o filme foi aplaudido de pé e uma comoção se espalhou pelo ar, que se estendeu à toda a equipe: Luiz, Talita, Pedro, que assistiram ao filme no telão pela primeira vez. Frio na barriga, inclusive, como garantiu Luiz Bolognesi na entrevista de vídeo para o Cenas. 

Na manhã de domingo (20), último dia da Berlinale Summer Special chegou a notícia de que o filme povo indígena Yanomami arrematou o prestigioso e cobiçado Prêmio de Público da Mostra Panorama. Isso deve ser o único fenômeno que manteve a tradição num ano em que tudo foi diferente e tudo fora do normal: a premiação de um filme brasileiro como o melhor filme, escolhido pelo público. Muitos e muitas diretoras brasileiras já arremataram esse prêmio. 

Berlinale no verão

A Berlinale 2021 foi um desafio, para muitos e, com certeza não ficará na lista da edição que eu gostarei de lembrar, mas a presença do filme brasileiro com essa temática foi a resistência possível, necessária, urgente e bem-vinda e que, por pouco mais de uma hora, tirou o Brasil (outrora gigante) da total isolação política e cultural, na qual se perdeu. Quase esquecendo algo que, mesmo depois do mundo capotado e pessoas morrendo por uma doença para a qual já existe vacina, é o fato da Berlinale não ter perdido seu cunho político, seu DNA que é intrínseco com a história da cidade dividida pelo Muro durante 28 anos. 

O ex-diretor da Berlinale Dieter Kosslick disse, certa vez: “Cinema nos ajuda a saber o que acontece no mundo”. O filme de Luiz Bolognesi, em harmonia, ironia ou mesmo acaso do Zeitgeist, cumpre também essa função.

Foto em destaque: © Brigitte Dummer / Berlinale

Fátima Lacerda

Fátima Lacerda é carioca, radicada em Berlim e cobre o festival desde 1998. Formada em Letras no R.J e Gestão cultural na Universidade "Hanns Eisler", em Berlim é atuante nas áreas de Jornalismo além de curadora de mostras. Twitter: @FatimaRioBerlin | @CinemaBerlin
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