Festivais e mostras

Berlinale 2021: tudo novo de novo

uma personagem até agora desconhecida

A edição Summer Special do Festival de Cinema de Berlim é tão inusitada quanto o Zeitgeist no qual vivemos. É ele quem nos exige über-flexibilidade para lidar com os desafios resultantes de uma pandemia que, mesmo em diferentes nuances, atingiu o mundo inteiro na espinha dorsal. 

Um jornal berlinense usou como manchete: “A Berlinale venceu a pandemia”, o que não é fato, mas que consola a mente e o coração de quem, com eu ficou mais de um ano sem adentrar uma sala de cinema e como ensinava o Enfant Terrible do cinema alemão, Rainer W. Fassbinder: “Cinema liberta a mente“. 

As ofertas de streaming foram a alternativa que o mercado encontrou para evitar o encalhar de obras, algumas delas com orçamento de produção bem expressivos com filmagens em países diferentes exigindo grande manobra logística. 

Foi também a pandemia que determinou a necessidade de dividir o festival em duas etapas: a primeira, no mês de março, completamente online, toda voltada para o mercado. A segunda, um formato de festival a céu aberto, que lembra a da cidadezinha de Locarno, que sempre em agosto, durante o alto verão europeu é palco de celebração da Sétima Arte. 

O formato à céu aberto foi o único factível para Berlim e também coerente para que a edição 2021 não ficasse comprometida. Foi por muito pouco que os berlinenses tiveram o Happy End que, com todo trocadilho, inicia na noite de hoje (09) no cinema principal, localizado na Ilha dos Museus à beira do Rio Spree, que atravessa o centro da capital. 

Com a chegada da primavera, depois de tudo fechado em um lockdown de cinco meses, e a diminuição considerável do número de casos, o festival vinha se tornando cada vez mais factível, mas parece que estava escrito nas estrelas, que, justo na semana em que o Senado de Berlim liberou viagens e hospedagens em hotéis para fins turísticos, acontece o maior evento cultural da Alemanha. O vislumbramos como um oásis no meio de um jejum cultural, amargando na secura da ferramenta de subjetividade uma ampliação de horizonte e que nos  confronta com nossas próprias fronteiras. Cinema pode (e deve) ser uma experiência filosófica. Sem noção quem deixa essa oportunidade passar, mesmo que com todas as lascas de “Against All Odds” de uma Berlinale sob o calor de 30 graus. É preciso mergulhar nessa onda. Pagar pra ver. 

Berlinenses terão o tapete vermelho de volta e a inseparável sensação de frisson durante os dias em que a cidade inteira respira cinema e se orgulha em ser o foco cultural do mundo. Apesar de todas as idiossincrasias dessa Berlinale, sua chegada é um alívio e um alento de saudades infinitas, entre elas a de ouvir a vinheta com a musiquinha antes do filme começar. 

@Berlinale

Similaridades e discrepâncias 

Mesmo que em sua história recente a Berlinale seja parte fixa do calendário cultural de inverno, até o ano de 1977, o então Festival Internacional de Cinema de Berlim, acontecia durante o mês de junho, em pleno verão berlinense. O confronto também de natureza calendária com o megafestival de Cannes, na Costa Azul francesa, foi a causa principal para a mudança de datas. 

A edição Berlinale Summer Special também exibe semelhanças com edições de outrora, mais especificamente até 1998, ano em que Fernanda Montenegro foi internacionalmente consagrada ao receber o Urso de Prata como melhor atriz pelo filme Central do Brasil. Nessa época, a direção do festival anunciava os prêmios na parte da manhã de domingo e a cerimônia de premiação acontecia à noite, no cinema Zoo Palast, ou seja, livre de boa porção de suspense e frio na barriga especialmente por parte de quem estava presente. Mas claro que no caso da dona Fernanda, o suspense era incontido pelo significado mil-folhas que ele traria para a vida da dama do teatro brasileiro. 

Na edição 2021, os prêmios foram anunciados em março, mas os Ursos de Ouro e Prata serão entregues no dia 13, na metade do festival. 

Festival enxuto 

Devido às medidas preventivas concernentes à pandemia, só serão vendidos 60.000 ingressos. Na edição 2020, que foi o último festival de grande porte antes da Europa afundar no lockdown, 330.000 foram vendidos. Durante as primeiras horas do dia 3 a procura foi tanta, que houve falha no sistema. 

A fila de cadeiras terá sempre um distanciamento de 1,5 m até a próxima cadeira ocupada. 

Para adentrar os cinemas, os espectadores devem apresentar o ingresso adquirido online e um teste negativo de Covid-19. Só é dispensado de fazer o teste quem já tem, ao menos, duas semanas depois da segunda dose da vacina, e a Alemanha ainda está longe de alcançar esta meta.

A Última Floresta
A Última Floresta, de Luiz Bolognese / Foto: Divulgação

Ausência do cinema brasileiro 

Enquanto a Berlinale de 2020 foi apelidada por jornalistas brasileiros como “Brasilnale” devido à enxurrada de filmes espalhados por todas as mostras, esse ano o sinal é de escassez. O único filme brasileiro no programa é A Última Floresta, do diretor Luiz Bolognesi, e o único representante da cinematografia autoral na mostra Panorama, anfitriã desse formato. 

O estrangulamento do setor cultural e total abandono da Ancine por motivação político-ideológica, agravado pela pandemia, com o fechamento de cinemas e interrupção de produções, culminou num deserto cultural. Que o desdobramento dessa dinâmica chegaria tão rápido à Berlinale, é uma triste surpresa. 

Também na Alemanha, as produções sofreram com a interrupção por um lockdown que foi de dezembro até o final de maio. Na Berlinale, um festival essencialmente político por conta da motivação pelo qual foi criado, a idéia do ex-diretor Dieter Kosslick era abrir mais espaço para diretoras mulheres na prestigiosa mostra, também como desdobramento do escândalo que gerou o #metoo. Neste ano, os filmes de mulheres são escassos. Há poucas mulheres representadas na mostra Competitiva, na corrida pelos Ursos. Na próxima edição, poderemos constatar se foi realmente a pandemia, fato determinante para esse cenário ou se nem tanto. 

Berlinale 2021
Cinema ao ar livre Museumsinsel (imagem renderizada) / @Berlinale

Cidade-cinematográfica 

Berlim já tem tradição como cenário para filmes que entraram para a história e/ou que se tornaram imortais. Dessa vez, durante o festival, o horizonte de Berlim será o cenário ao vivo e a cores, e a cidade, a protagonista do maior evento cultural do país.

A mostra Competitiva exibe somente 15 filmes. A mostra Retrospectiva, uma das mais queridas do público, tem em 2021 seu hiato, pois a técnica disponibilizada nos cinemas ao ar-livre não possibilita a exibição das cópias de formato 35mm. 

A mostra “Berlinale goes Kiez”, que valoriza os cinemas de bairro, terá um Upgrade e também será transferida para o formato Open Air. 

O melhor dessa edição de 2021 é que a Berlinale nunca esteve tão demograficamente bem distribuída pelos quatro cantos da cidade, possibilitando, de forma bem mais eficiente do que nos últimos anos, a inclusão no evento de berlinenses menos privilegiades. 

Leveza inusitada 

O formato de 2021 lembra mais a leveza da cidade de Locarno, na Suíça. A brisa do verão e a leveza de quem está de férias são os requisito-mór do festival de lá. 

O feeling que emana da cidade de Berlim, entretanto, não poderia ser mais antagônico, mas já que o Zeitgeist nos reservou esse desafio, “Vamos mergulhar de onde já saímos” (como ensina a música do Paulinho Moska) e embarcar nessa vibe de Berlinale com o Urso usando óculos escuros. Meu ceticismo é grande, mas a necessidade de voltar ao cinema é muito maior. 

Incontestável sim, é o alívio de berlinenses e alemães que vêm de outras cidades, que depois de uma seca cultural poderão inalar o glamour do evento de visibilidade no mundo todo, conhecer personagens, ver protagonistas e diretoras e diretores ao vivo depois da sessão, discutir sobre cinema como se não houvesse amanhã e jurar de pé junto que assistir “aquele filme” é uma questão filosófica de ser ou não ser. Só por momentos como esses, já terá valido a pena. Quanto ao formato, vamos inspecionar e conhecer uma nova protagonista e personagem até agora desconhecida: a tal leveza berlinense…

Fátima Lacerda

Fátima Lacerda é carioca, radicada em Berlim e cobre o festival desde 1998. Formada em Letras no R.J e Gestão cultural na Universidade "Hanns Eisler", em Berlim é atuante nas áreas de Jornalismo além de curadora de mostras. Twitter: @FatimaRioBerlin | @CinemaBerlin
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