Críticas

Body Cam

(Body Cam, EUA, 2020)
Terror
Direção: Malik Vitthal
Elenco: Mary J. Blige, Nat Wolff, Theo Rossi, David Zayas, David Warshofsky, Ian Casselberry, Philip Fornah, Lara Grice, Demetrius Grosse, Naima Ramos-Chapman, Altonio Jackson, Renell Gibbs
Roteiro: Nicholas McCarthy, Richmond Riedel
Duração: 96 min.
Nota: 4 ★★★★☆☆☆☆☆☆

Entre os artifícios usados para provocar suspense e horror, um tem se destacado como favorito: a terceirização das imagens. Vários passos à frente da câmera subjetiva, escolha estética dos diretores para direcionar o olhar do espectador, está a captação que distancia a interferência. Podemos separar o tópico em duas partes: o registro por câmeras de segurança ou webcams, onde se busca a amplitude de tempo e espaço ou informalidade na representação visual; e o uso de equipamentos de captação manejados pelos próprios atores, onde a intenção clara é de demarcar a urgência e o perigo. Porém, não deixa de ser algo que transcende o controle do filme. Por mais que se tente, com ensaios e preparação, ou se seja responsável pela colagem de partes do material, parte daquilo que se vê foi conduzido por uma terceira pessoa, ou assim quer que se pense. Body Cam é um filme que tenta se construir nesse desapego do controle da imagem, aproveitando-se dos sentidos que isso desperta.

Body Cam (2020)

Sendo o terror o grande responsável pelo surgimento e aprimoramento da câmera terceirizada, natural que vários títulos do gênero inspirem-se no uso, e assim criam-se os clichês de um artifício. Quando se descobriu a facilitação da imagem personalizada, feita por alguém que está mais próximo de quem assiste ao filme ou por um aparelho que escaneia todo o ambiente de tempos em tempos, e encontrou-se o senso de realidade que atinge a ansiedade e o horror, as práticas popularizadas no final dos anos 1990 com A Bruxa de Blair e em 2007 com Atividade Paranormal, respectivamente, encontraram variações.

Foi assim que nasceram filmes bem sucedidos, como o simples mas ousado Amizade Desfeita e até mesmo a incursão de M. Night Shyamalan no found footage com A Visita. Em Body Cam também vemos uma variação, ainda que menos bem sucedida, quando boa parte das imagens vem das câmeras que acompanham policiais, tanto as fixas nos veículos como as que todos são obrigados a usar presas ao uniforme em situações de abordagem.

Body Cam (2020)

Não seria uma ideia ruim se todo o entorno das imagens não estivesse perdido entre tramas paralelas e justificativas tolas. Se as imagens funcionam de quando em vez, provocando sustos eficientes e a tensão necessária para as cenas, a indecisão do diretor quanto à técnica põe tudo a perder. Durante todo o filme Malik Vitthal (Sonhos Imperiais) vacila no aproveitamento da terceirização e parece não confiar nela, tendo que inserir imagens e rompendo com o pacto estabelecido com o espectador.

A salvação deveria vir, portanto, do roteiro de Richmond Riedel (Charades) e Nicholas McCarthy (diretor de Maligno). E há coisa interessantes, principalmente no conteúdo político que Body Cam alcança, denunciando a truculência policial e a constante eliminação de negros nos Estados Unidos, mas há confusão também.

Nat Wolff e Mary J. Blige em Body Cam, de 2020

O desenvolvimento da policial Renee Lomito-Smith, vivida por Mary J. Blige (Mudbound), não encontra muito espaço, assim como suas investigações, responsáveis por levar o filme até o terceiro ato. Neste, várias passagens confundem-se entre a previsibilidade e aquele mostrar a mais que prejudica filmes de terror. O desfecho é melancólico, pela oportunidade estética perdida, e piegas, pela tentativa de amarrar todos as pontas em um final que só faria sentido se as tramas opostas ligadas pelo mesmo amor fossem melhor desenvolvidas.

Body Cam tinha tudo nas mãos e podia se sair muito bem misturando câmeras terceirizadas ao terror genuíno de uma vingança violenta e sobrenatural, mas se perde. E se perde porque interfere demais, mostra demais e quer contar mais história do que o próprio filme é capaz de comportar.

Um Grande Momento:
A primeira aparição.

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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