Crítica | Festival

Cidade dos Sonhos

(Cheng Shi Meng, CHN, 2019)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Weijun Chen
  • Roteiro: Weijun Chen
  • Duração: 102 minutos
  • Nota:

Wuhan é uma província da região central da China que há seis anos atrás presenciou a fatia mais aguda de um embate antigo entre a cidade e um de seus moradores, e o diretor Weijun Chen teve a sensibilidade de farejar nesse imbróglio uma versão moderna de David e Golias, universalizando por trás dos eventos que eventualmente criaram a rivalidade entre um homem e sua família e o poderio local. Sim, estamos falando da mesma Wuhan que desde dezembro se prostrou no olho do furacão das discussões mundiais, ao compreender o paciente zero da pandemia de COVID-19, que transforma toda a obra, toda a localidade, e invariavelmente a relação entre seus personagens e as instituições de poder.

Os limites da invasão ética no gênero documentário voltam a ser testados em Cidade dos Sonhos, produção dirigida pelo experiente cineasta Weijun Chen, que disseca as questões centrais e humanas sob a qual divergem o Homem e o Estado. Ao discursar explicitamente a respeito dos dois lados da moeda, mergulhando em seus processos internos sejam eles empregatícios ou familiares, o filme acerta ao não dar razão a ninguém e dar a todo mundo, criando essa dicotomia incômoda onde o espectador se divide de atitude em atitude acerca da razão, mas talvez ninguém os tenha mesmo.

Mas onde começam e onde terminam as liberdades de um autor ante situações de conflito? Sempre parte integrante de conflitos que se apresentam cômicos pra se desenrolarem dramáticos, esbarrarem no patético para resvalar no potencialmente perigoso, a equipe cinematográfica assiste e registra momentos de envolvimento imediato do espectador, que passeia por uma gama de emoções até se colocar no lugar do realizador; afinal, um filme que dispunha a filmar os dissabores do real deveriam ter um distanciamento emocional do material filmado, mas como respeitar essa barreira diante da violência, física ou psicológica? Não dar uma resposta cria uma rusga que extrapola o filme e cuja reflexão alcança a dramaturgia para tornar-se parte integrante da mesma.

Cidade dos Sonhos (2019)

A câmera de Chen vasculha os vestígios de uma cultura rural que migrou para as cidades e dela não conseguiu extrair nada. Quando o Estado falta em educar seu povo, obviamente também faltará em educá-lo. De aparência a princípio cândida, o homem conhecido como tio Wang é produto do que fizeram consigo, um sem número de negativas e decepções que desembocam numa personalidade instável e predadora, muito mais de si que de terceiros. Tio Wang é uma bomba relógio sem timer que responde à sociedade com som, fúria e uma enorme capacidade de autocomiseração, uma figura ao mesmo tempo profundamente explosiva e melancólica.

O protagonista de Chen, um homem comum e real em busca de obter da cidade o que o campo não conseguiu prover, é também ele o retrato de um movimento representativo do êxodo rural às grandes cidades e também a prova do descaso da sociedade com seres a quem só a margem foi destinada. Uma família marcada com o carimbo de párias sociais, por sua falta de recursos e deficiências de inúmeras ordens, que grita com as nuvens de forma cada vez mais uníssonas, mas que depende exclusivamente da providência alheia. Sem vitimizar seus personagens, Cidade dos Sonhos carrega uma imparcialidade pelas suas curvas narrativas, que constroem num fluxo a luta entre quem tem e quem não tem poder.

Além da profunda inteligência político-social, Chen apresenta um Filme devidamente armado de empolgante pujança cinematográfica , Se conseguir não se hipnotizar com o caráter profundamente impactante de grande parte dos embates entre tio Wang e os profissionais da administração urbana da cidade, o espectador terá à sua disposição uma cascata de climaxes em sequência; de maneira ininterrupta, o filme coloca o limite desgastado entre quem deveria cuidar e quem só precisa ser cuidado. Aos poucos, novas tintas pintam seus personagens com cores ainda mais relevantes, porém com um recheio ambíguo em seu olhar geral.

Ao fim de Cidade de Sonhos, essa produção recém-estreada em seu país de origem terá um leque de amplitude de significação e reverberação muito maior do que quando foi rodado. Wuhan, pintada como uma cidade em busca de expansão qualitativa e crescimento da ordem diante dos rompantes demográficos do passado rural, virou enfim palco-vetor de uma tragédia sem precedentes da História mundial. A aplicação das cartelas finais nos deixa amargos e incrédulos diante do impensável até cinco anos atrás; seria irônico se não fosse profundamente devastador, e trágico. Mas… para os “tios Wangs” do mundo, a COVID-19 é apenas mais uma das suas infindáveis tragédias.

Um grande momento
Os tapas.

[25º É Tudo Verdade]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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