Crítica | Festival

Libelu – Abaixo a Ditadura

(Libelu - Abaixo a Ditadura, BRA, 2020)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Diógenes Muniz
  • Roteiro: Diógenes Muniz
  • Duração: 95 minutos
  • Nota:

Em sua “Carta à Juventude”, Trotsky  defendia que um partido revolucionário precisava, necessariamente, estar baseado na juventude. Segundo ele, um atributo básico da juventude socialista era a disposição de entregar-se completamente à causa. “Sem sacrifícios heróicos, valor, decisão, a história em geral não se move para frente”, dizia. Foi na empolgação pelos escritos do intelectual marxista e na indignação com a situação política do país que surgiu a tendência Liberdade e Luta (Libelu), parte importante do movimento estudantil nos anos 1970, a primeira a gritar “Abaixo a ditadura!” após o AI-5.

Tendo como espaço primeiro a USP e a redação do jornal “O Trabalho”, editado pela OSI, a tendência ganhou força, espalhou-se por outros centros acadêmicos e tornou-se conhecida no país afora, com uma identidade muito marcada pela irreverência e ousadia. Libelu – Abaixo a Ditadura, dirigido por Diógenes Muniz, resgata a história trazendo para o ponto de partida, no sempre imponente prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, nomes que marcaram o movimento. Com o afastamento, o amadurecimento e a adequação capitalista (afinal, os boletos existem), 40 anos depois, ex-dirigentes e militantes falam sobre a experiência.

Libelu - Abaixo a Ditadura

Além dos depoimentos atuais, o documentário resgata uma antiga entrevista de Mino Carta sobre a Libelu, onde entrevista os ativistas e o coronel Ernesto Dias, responsável pelas ações mais violentas contra o grupo, quando ainda ocupava o cargo de Secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo. Restrito a acontecimentos de uma época específica, o longa traz reflexões pertinentes sobre a ditadura, a crença da juventude e o paradoxo burguês, que vence regimes há séculos, sempre na reafirmação capitalista.

Os depoimentos vêm pontuados por imagens de arquivo e Libelu – Abaixo a Ditadura consegue superar a forma engessada para fazer perceber o ímpeto juvenil no enfrentamento. É uma história – burguesa e da elite, lembre-se sempre – que dá gosto conhecer. A maneira como as ideologias vão se adequando dentro de cada um, com confirmações, como no caso de Laura Capriglione, ou contradições, Demétrio Magnoil. Entre os nomes de destaque, um que não pode ir gravar na FAU por estar em prisão domiciliar, Antônio Palocci, que revive sua parte na história. 

Libelu - Abaixo a Ditadura

A amarração dessas visões de um todo é feita com cuidado. Há uma desenvoltura no trazer elementos que unam o discurso, como o cartaz de campanha, a reportagem de capa da IstoÉ, o poema de Paulo Leminski ou as muitas fotografias. Em sua estreia no cinema, Diógenes Muniz, dá alguns tropeços e peca na edição de alguns momentos excessivamente repetitivos, deixando escapar o apego a passagens que falam alto ao próprio diretor e suas inclinações e identificações pessoais.

É interessante ver como o filme, no reencontro com cada uma daquelas pessoas, acaba se encaixando naquilo que usei para abrir o texto. Dizia Trotsky, naquela mesma carta:

“O mais contagiante entusiasmo rapidamente esfria-se ou evapora se não encontra uma clara compreensão das leis do desenvolvimento histórico. Frequentemente, observamos como os jovens entusiastas, ao dar uma cabeçada na parede convertem-se em sábios oportunistas; como ultraesquerdistas desenganados passam em curto tempo a ser burocratas conservadores…”

Libelu – Abaixo a Ditadura é um documento histórico importante em meio à apatia que se estabeleceu nos grandes corpos após o golpe legislativo de 2013, que levou o país a um buraco de obscurantismo que parece não ter fundo. Fala de encantamentos e desencantos, de crenças e descrenças, mas, acima de tudo, fala de movimento, do sair do lugar para atingir algum objetivo. As ideologias ficam ultrapassadas, podem ser superadas, mas o desejo de mudar não pode desaparecer. 

Um grande momento
Abaixo a ditadura!

[25º É Tudo Verdade]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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