Crítica | CinemaDestaque

Decisão de Partir

Formas da paixão

(헤어질 결심, KOR, 2022)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Park Chan-wook
  • Roteiro: Park Chan-wook, Jeong Seo-kyeong
  • Elenco: Park Hae-il, Tang Wei, Lee Jung-hyun, Jeong-ahn, Go Kyung-Pyo, Shin-Young Kim
  • Duração: 139 minutos

Se a paixão correspondida já é capaz de transformar a realidade e trazer tanto um objeto de desejo quanto um ser amante irreais, o amor não realizado é ainda mais potente na criação de fantasias. Ele é capaz de imaginariamente transportar o corpo para perto do ser amado, de criar seus pensamentos e deduzir suas vontades, crenças e desejos. É nesse misto de fantasia e realidade que se encontram Jang Hae-joon e Song Seo-rae, um policial caxias e uma recém-viúva suspeita de ter assassinado seu marido. A história dos dois nasce em meio a essa investigação e é recheada por não ditos e incompletudes, espaços que são preenchidos pelo imaginário encantado de um e de outro, em tempos diferentes. 

Decisão de Partir é, ao mesmo tempo, apaixonado e apaixonante. Seu diretor, Park Chan-wook (A Criada), encontra esse tom de confusão que o estado emocional confere aos que o experimentam, transformando aquilo que não existe em presença e ação, indo e voltando no tempo e intercalando eventos particulares com episódios paralelos que, assim como na vida, não deixam de acontecer porque alguém se encantou. Com a precisão técnica que lhe é caracterítica.

Decisão de Partir
CJ ENM Co., Ltd., MOHO FILM

Por trás de tudo, a investigação do assassinato, aquilo que afasta e aproxima num suspense elaborado e cheio de reviravoltas, com direito a tocaias, longos depoimentos, mural de suspeitos e passagem de tempo. Pela estrutura, desenvolvimento e até por muitos detalhes da trama, Hitchcock vem à mente muitas vezes, em especial Um Corpo Que Cai, mas o que se vê é Chan-wook em toda sua originalidade e ousadia. Só pelo modo como ele trabalha os sentimentos e até a interação daqueles dois corpos é impossível não identificar o cinema do sul-coreano.

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Com muita atenção ao desenvolvimento dos personagens, em especial dos complexos protagonistas e de sua difícil interação, seja pela situação em que se deu o encontro, pelo fato dele ser casado ou pela incomunicabilidade com a diferença da língua, pequenos detalhes tornam Decisão de Partir um exemplar diverso do gênero. É só ver o modo como torna concretas as sensações, e aqui indo além das desconfianças do detetive e misturando-as com os sentimentos do homem apaixonado, ou no tempo alongado de passagens, como numa “perseguição” que se dá pelas setas dos carros.

Decisão de Partir
CJ ENM Co., Ltd., MOHO FILM

O interessante é que os eventos acontecem de modo a nunca deixar o espectador ter certeza do que virá a seguir. Novos movimentos confundem, assim como novos personagens surgem para deixar a trama mais confusa. Há uma linha lógica, mas ela é trabalhada sempre nessa chave da improbalidade, da ilusão, como se a realidade estivesse longe demais. É uma história de suspense, de detetive, mas Chan-wook está filmando e dando corpo à paixão, em seu começo, encantamento, atordoamento, confusão e fim. Uma paixão impossível, lembre-se, então ainda mais vigorosa e fantástica. E mais triste também. 

Um grande momento
Na praia.

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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