Crítica | Festival

Dois Bois

Gêneros em desfile

(Dois Bois, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Ficção
  • Direção: Perseu Azul
  • Roteiro: Perseu Azul, Pedro Leite
  • Elenco: Oz Ferreira, Antonio Alípio, Tero Queiroz, Sandro Lucose, Rafael Alves, José Diniz
  • Duração: 22 minutos

Joana volta para a fazenda da família após a morte da mãe, para a preocupação do irmão e contra a vontade do pai. A jovem não tem mais conexão emocional com aquele espaço físico, está ali para cumprir uma missão para o qual parece ter sido designada. E a personagem está fisicamente em cena, está obedecendo ordens, está realizando ações… mentalmente está longe, elaborando todos os acontecimentos que vão sendo despejados em cima dela. É o peso do passado vindo com a força de uma imagem poderosa onde sua mãe morta a estampa com orgulho, e o arrebatamento de um presente que precisa ser esclarecido. Dois Bois é um belo trabalho introdutório.

Perseu Azul é mato-grossense e o seu estado não costuma estar no mapa da representatividade do nosso cinema, que celebra regiões e estados sem que o Centro Oeste consiga encontrar voz frequente; especificamente o Mato Grosso não tem tradição de apresentar seu olhar pro resto da nossa cinematografia. Com os predicados que o jovem cineasta apresenta em sua estreia, podemos criar uma expectativa para seus passos posteriores, porque não é apenas uma região apresentada como ideias de um olhar múltiplo na procura por gêneros e suas possíveis combinações e fusões, que acabam por lançar curiosidade no todo.

A textura do que Azul apresenta neste portfólio é de profunda qualidade de matizes a partir do que a própria narrativa pede, ao criar um estado de tensão que se enraíza entre diversas relações: pai e filha, presente e passado, homens rivais, campo e cidade. Em cima do emprego da luz de Renato Ogata e da qualidade do emprego de cada plano, o filme vai costurando com parcimônia sua teoria imagética de observação entre o que precisa ser apresentado e a sugestão com o que não nos é fornecido, em imagens ou em narrativa. O diretor abusa desse poder ilusório do material e suas cores, que sugerem um emaranhado de elementos no qual precisamos nos debruçar.

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Um exemplo do que Azul elabora é a sequência que envolve a “troca de posses” entre os rivais, que proporciona esse caráter de dualidade de proposta. O que vemos é o que aconteceu, ou uma nova perspectiva pode ressignificar nossa noção do que é factual? O diretor revela esse olhar especial sobre as muitas camadas de verdades, que são multifacetadas dependendo do olhar do observador (espectador) e do relator (personagem), que têm conceitos do que são as suas em particular, e no caso do observador, o filme monta um quebra-cabeça visual onde cada detalhe revela um novo ponto de discussão para sua narrativa.

O mais interessante é que o diretor não está interessado em criar uma plataforma de hermetismo autoral ou de complexidade estética que destoe do que apresenta enquanto apresentação de roteiro. Flertando com as lógicas do western e do suspense psicológico, Dois Bois é um cartão de visitas especial, com uma performance sinuosa de Oz Ferreira, e uma dedicação para a composição visual bastante acima da média, resultando em um potencial estudo de linguagem que explode na tela pela força dos seus planos, dos seus enquadramentos. É um trabalho delicioso de assistir onde sobram méritos artísticos.

Um grande momento
A troca

[25ª Mostra de Cinema de Tiradentes]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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