Crítica | Festival

Edifício Gagarine

Mais do que o lugar

(Gagarine, FRA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Fanny Liatard, Jérémy Trouilh
  • Roteiro: Benjamin Charbit, Fanny Liatard, Jérémy Trouilh
  • Elenco: Alseni Bathily, Lyna Khoudri, Jamil McCraven, Finnegan Oldfield, Farida Rahouadj, Denis Lavant, Cesar 'Alex' Ciurar, Rayane Hajmessaoud
  • Duração: 98 minutos

Conheci Youri há alguns anos. Em pouco mais de 15 minutos, ele conseguiu me mostrar a importância de sua casa, um apartamento num gigantesco centro habitacional onde mantinha suas memórias e fantasiava seu futuro. Porém, a história já começava ameaçada: o prédio estava prestes a ser demolido. O lugar era o Edifício Gagarine, construído pelo Partido Comunista Francês e batizado com o nome do primeiro homem a viajar no espaço. No subúrbio de Paris, os quase 400 apartamentos tiveram fases, a princípio foram o lar de operários e, com o tempo, passaram a ser ocupados por imigrantes. O que eu vi entre Youri e seu lar acabava sendo mais do que um jovem com um ídolo lutando por algo que lhe era caro, era afeto e identificação numa França marcada por graves rupturas sociais.

Agora eu volto a me encontrar com Youri, mais uma vez graças a Fanny Liatard e Jérémy Trouilh. Em uma nova configuração, pois, se lá atrás o que havia era uma projeção do que aconteceria, aqui é fato. O destino do Edifício Gagarine estava posto, a demolição é um fato, e a abordagem agora é mais profunda. O que antes era fechado em uma relação muito pessoal, aprofunda-se em outros grupos, ganha o coletivo. Muito do encontro traz imagens de dois passados: o da história daquele lugar e o da minha particular com o espaço — já criada sinteticamente pelo cinema. Há o que se repete e o que é completamente novo, em um jogo de registros que cria um outro Gagarine, sem nunca se afastar de todo o apelo afetivo e sua importância.

Edificio Gagarine
Foto: Divulgação

O longa, portanto, tem, pelo menos, três espaços de acesso que nunca serão iguais: para os que viveram o Gagarine, para os que foram a ele apresentados na aventura futurista de 2015 e para os que estão chegando agora, pela primeira vez. Essa multiplicidade de percepções, mesmo em um momento de distanciamento como esse em que a Covid-19 nos afasta da comunhão dos cinemas, aproxima o filme de seu objeto principal de uma maneira muito especial. Todos estão no mesmo lugar, vivendo a mesma coisa, tendo as mesmas informações, mas a relação de cada uma das pessoas com aquele T gigante vermelho com suas muitas janelas vai ser diferente.

Liatard e Trouilh traçam dois caminhos e vão alternando entre eles. De um lado, querem contar como o prédio foi construído, sua história pelo tempo e conhecer um pouco das pessoas e dessa convivência no local, inclusive recuperando material de arquivo com fotos e vídeos dos moradores que falam mais do que qualquer depoimento. De outro, ficcionalizam a passagem real dos moradores tentando evitar a demolição, marcam a posição da juventude e elegem Yourie como aquele que representará a resistência. É ele quem ganha um passado e um futuro que o motivam a seguir lutando por tudo aquilo. Isso está em seu nome, o nome do prédio, também do primeiro homem a sair de órbita, eis aí o herói.

Edificio Gagarine
Foto: Divulgação

São muitas as coisas embutidas nessa associação. A origem e o ideal socialista da edificação, o abandono estatal após a desindustrialização, a demolição de um lugar ocupado majoritariamente por imigrantes, o espaço sideral como alternativa a um mundo que repele. A permanência daquele local, de certo modo, assegurava a existência. Não de suas janelas, paredes e elevadores, mas de algo muito mais humano. E Youri, mais do que aquele que nos leva pelo caminho, surge como uma personificação de tudo.

A mensagem é tão poderosa e, ao mesmo tempo, deixa tanto a refletir, que os muitos tropeços ficam em segundo plano. Mesmo que nem sempre consiga dar fluidez a um roteiro com tantos personagens e claramente sinta a substituição de Alexis Baginama, mais expressivo e seguro, por Alseni Bathily, Edifício Gagarine tem a sua história e, mais do que isso, tem a força das conexões com ela a seu favor.

Um grande momento
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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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