Crítica | Festival

Entre Nós Talvez Estejam Multidões

As multidões que cabem em cada um

(Entre Nós Talvez Estejam Multidões, BRA, 2020)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Pedro Maia de Brito, Aiano Bemfica
  • Roteiro: Pedro Maia de Brito, Aiano Bemfica
  • Duração: 99 minutos
  • Nota:

Aiano Bemfica e Pedro Maia de Brito realizaram junto dois filmes que funcionam como pontes de acesso a esse novo Entre Nós Talvez Estejam Multidões, seu primeiro longa. Anteriormente, trabalhos que olharam para as ocupações sociais e revelou ao cinema o interior dos espaços e das pessoas que os compõem como Conte Isso Àqueles que Dizem que Fomos Derrotados e Na Missão com Kadu apresentaram à cinematografia nacional recente muito mais do que uma possibilidade de desvendar por dentro lugares inacessíveis ou radiografar um preâmbulo social inesperado; o que vemos ao olhar para essa dupla de filmes é essencialmente bom cinema, independente de suas funções.

Depois desse assalto audiovisual que liquidifica liberdade narrativa a uma proposta estética absolutamente refém de suas ações, onde o material filmado e montado nos aproxima de espaços desconhecidos para as “altas rodas” que frequentam festivais, em contagiante ebulição de imagens febris, esse seu primeiro longa está mais disposto a ouvir do que necessariamente “falar”, como se anos envolvidos com essa ambientação em constante ameaça de desconstrução os tivesse impelido a finalmente olhar para o quadro amplo de nomes, rostos, histórias de vida e diferentes substâncias, um mosaico sócio-político de ampliações inesperadas.

9º Olhar de Cinema: Entre Nós Talvez Estejam Multidões

Ainda que em Na Missão com Kadu o personagem-título seja exibido sem capa e disposto a doar parte de suas camadas aos diretores (e o filme seja absolutamente apaixonado e envolvido por Kadu), nessa nova produção duas das primeiras imagens do filme sugerem a disposição narrativa que se seguirá e por fim se encerrará. Em primeiros momentos, uma reunião ao ar livre pra apresentar o CEP aos moradores da ocupação Eliana Silva e uma espécie de assembleia de debate sobre as eleições de 2018 colocam lente de aumento gradual em pessoas que não podem mais serem vistas como números. O trabalho de Bemfica e Brito é revelar os nomes por trás dos endereços, para além da estatística.

O projeto é bem sucedido em tirar o sumo de pessoas comuns que não podem mais serem vistos como “vagabundos e arruaceiros” (como provavelmente os consideram altas cúpulas em Brasília); o filme, sem julgá-los, os apresenta com a naturalidade de um vizinho novo que precisa compartilhar experiências com o espectador. Mais do que um clichê de humanidade, o que o filme revela são traços simples de pessoas que também têm suas camadas, e as trata com a coloquialidade necessária para seus intentos narrativos, que frontalmente pode enfrentar e inquirir, mas essencialmente aqui se desnuda.

Entre Nós Talvez Existam Multidões, filme selecionado para o 9º Olhar de Cinema

O que Entre Nós Talvez Estejam Multidões entrega em motivações emocionais e relevo pessoal, perde em estrutura imagética e impacto narrativo. Ao optar por um mergulho aprofundado em cada personalidade de seus personagens e suas camadas em substituição a intensidade que seus registros anteriores davam a suas incursões pelo corpo das ocupações onde se embrenharam, o filme diminui as labaredas que inflamaram os curtas que os apresentaram e às ocupações que eles levaram até o cinema, criando uma janela para pessoas que não são vistas; se o rigor visual não foi convidado para a empreitada dessa vez, dando um aspecto de documentário tradicional ao projeto, o mesmo é enriquecido pela voz de seus integrantes, que passeiam por política, vida amorosa, discussão de gênero, e amplia suas vidas.

A todo momento, os diretores abrem o planos geral da Eliana Silva para que possamos nos ater ao que estamos observando e não percamos isso de vista: Entre Nós Talvez Estejam Multidões se trata de uma comunidade completa, onde cada um de seus indivíduos merece ser visto com suas personalidades intactas, mas ainda assim são um grupo disposto à união para alcançar seus objetivos comuns, o que nos leva a reunião final, após absorvermos suas histórias unitárias. Parece um filme menos nervoso e virulento que os demais, mas ainda assim repleto de relevância, transformando seus personagens em pessoas reais cheias de poesia, som e fúria, ainda que internas.

Um grande momento
Leo

[9º Olhar de Cinema]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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