Crítica | Cinema

Eternos

Desconjuntado crepúsculo épico

(Eternals, GBR, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Chloé Zhao
  • Roteiro: Chloé Zhao, Patrick Burleigh, Ryan Firpo, Kaz Firpo
  • Elenco: Gemma Chan, Richard Madden, Angelina Jolie, Salma Hayek, Kit Harington, Kumail Nanjiani, Lia McHugh, Brian Tyree Henry, Lauren Ridloff, Barry Keoghan
  • Duração: 157 minutos

No começo…
O Universo Marvel se tornou Eterno
E o fim foi apenas o começo

“Far away across the field
The tolling of the iron bell
Calls the faithful to their knees
To hear the softly spoken magic spells”

Jack Kirby desenhista e corroteirista de toda e quaisquer criação da fase prateada da Marvel (“X-Men”, “Quarteto Fantástico”) em meados dos anos 1970 foi para DC e criou um grupo denominado Novos Deuses de onde saiu o grande oponente da maioria dos super heróis da editora: Darkseid, além de uma mitologia cosmogônica que trazia referências bíblicas e inspiradas no panteão grego-romano. Voltando para a Marvel com esse portfólio na bagagem, Kirby resolveu expandir ainda mais suas linhas de interesse com “Os Eternos”, agregando elementos de obras de Asimov e Phillip K. Dick a “Eram Deuses os Astronautas?” de Erich von Däniken – onde é traçada a possibilidade de que os primórdios da colonização humana sejam fruto de uma ancestralidade alienígena.

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Para essa versão cinematográfica dos quadrinhos, a aposta do todo poderoso da Marvel Studios, Kevin Feige, foi na recém-ganhadora do Oscar Chloé Zhao. Instigante, porém, a visão dela não empolga realmente por talvez uma falta de controle criativo maior ou imersão em todo o processo que envolve uma produção dessa envergadura. A saga se apresenta compassada, messiânica em todos os blocos narrativos – já entregues tanto no trailer quanto nos teasers de divulgação. Chegam à terra em sua nave de design herbertiano os dez seres incumbidos de observar e proteger a humanidade da ameaça dos Deviantes.

Eternos (2021)
© Marvel Studios, Disney Entertainment

Thena (Angelina Jolie), Ajak (Salma Hayek), Sprite (Lia McHugh), Phastos (Bryan Tyree Henry), Kingo (Kumail Nanjiani), Druig (Barry Keoghan), Gilgamesh (Don Lee), Makkari (Lauren Ridloff), Sersi (Gemma Chan) e Ikaris (Richard Madden) formam a “família” de deuses protetores. Como qualquer obra que reflete o seu tempo, Eternos passou por adaptações que trouxeram mais diversidade ao seu elenco e fortaleceram o discurso espiritual e humanista por trás da história, incluindo mais personagens femininas, etnias distintas e inclusive Ridloff que é surda para interpretar a veloz Makkari. Ou que Phastos tenha constituído uma família e seja casado com outro homem, sequência mostrada de forma orgânica e pouco apressada, que funciona.

Outras mudanças, como trocar o gênero de Sprite e fazê-la ter como uma fonte de sofrimento a impossibilidade da mortalidade (há inclusive a metáfora com Sininho, personagem de Peter Pan, também cabendo a possibilidade de pensá-la aproximada de Claudia de Entrevista com Vampiro, que inveja as mulheres por não poder crescer). Kingo também fica mais interessante como um astro de Bollywood do que como o velho samurai que fazia filmes de ação – a contraparte do HQ – apesar de volta e meia o tom de Eternos dessintonizar por um excesso de gracejo com as intervenções dele e de seu mordomo, Karum (Harish Patel), responsáveis pela parte meio que de falso documentário e alívio cômico do filme, com intervenções por vezes demais demoradas em momentos que não pedem por tal quebra. Mas rende bons momentos e frases como o astro lembrando: “Quando moleque Thor vivia atrás de mim e agora nem atende minhas ligações”.

Eternos (2021)
© Marvel Studios, Disney Entertainment

Dilemas éticos

Observar sem poder interferir, auxiliar sem poder se envolver muito, afinal, em alguns milhares de anos, os Eternos irão para outro mundo ajudar os Celestiais. A melhor parte e dicotomia mais interessante do filme de Chloé Zhao são as diferenças de personalidades, de pensamentos acerca da humanidade e de atitudes que vão permeando as relações entre o grupo. Se por um lado Phastos quer prover com a tecnologia e auxiliar no avanço e progresso de forma mais veloz e eficaz, Ajak acha que é melhor ir com calma: dar o arado invés da máquina a vapor. Druig não aguenta mais ver tantas guerras que poderiam ser evitadas, ao passo que Sersi gostaria de viver cada vez mais entre as pessoas que aprendeu a amar enquanto aquele que ela ama, Ikarus, prefere se isolar.

O relacionamento entre Sersi e Ikarus certamente é o elo mais importante e também frágil de Eternos já que o “amor de eras” condiciona decisões, traições e redireciona os rumos da história. Milhares de anos se passam e Ajak, a líder, agrega os seus quando a ameaça ressurge mesmo que não seja capaz de perceber que entidades cósmicas e seres sintéticos tem como similaridade a crença de que vieram das estrelas.

O roteiro escrito pelos primos Kaz e Ryan Firpo em 2018, passou por alterações nas mãos de Zhao e do roteirista de Paddington 2, Patrick Burleigh e é de se imaginar que num processo tão babilônico como o da produção de um filme como Eternos, se foi possível à cineasta acompanhar de perto todas as etapas e se envolver profundamente em cada uma delas, já que a impressão que fica é a de que houve um esforço em tornar a história do sacrifício do seres criados pelos celestiais factível ao ponto em que eles se afeiçoam pela humanidade por milhares de anos.

Eternos (2021)
© Marvel Studios, Disney Entertainment

Mas se no discurso de Eternos, em algumas cenas é possível criar um engajamento que denota emoção, em outras o desconjuntamento da forma meio que repele essa conexão tão desejada, seja pelos efeitos em CGI que aparentemente foram elaborados por vários estúdios simultaneamente ou em fases distintas, mas que carecem de uma unidade ou supervisão da cineasta, e a edição, um tanto arcaica no sentido de tentar engajar a audiência após a introdução seguida da ameaça pairando em sucessivas cenas de flashbacks que reforçam a evolução humana e os conflitos internos do grupo de deuses heroicos.

Ramin Djawadi famoso por Game Of Thrones compôs a trilha que guarda boas peças mas não deve ficar na memória por muito tempo. A fotografia, ainda que guarde aqui e ali alguns crepúsculos, panorâmicas, enquadre personagens em ângulos mais baixos e traga alguns resquícios da poética visual de outros filmes de Zhao é, na maior parte do tempo, genérica, o que se torna decifrável a partir do momento em que se identifica o nome não do colaborador costumeiro da cineasta, Joshua James Richards, mas sim do operário da Disney Ben Davies (Dumbo, Doutor Estranho, Capitã Marvel).

Num filme de pouco mais de 150 minutos não é razoável considerar que, mesmo em se tratando de dez personagens, não haja espaço para se conhecer minimamente e se importar com cada um deles. Entre os flashbacks e retomadas ao presente, conjecturas e diálogos onde se situa a história pós os eventos de Vingadores: Ultimato, no entanto, há um certo desleixo no desenvolvimento do arco da Thena vivida por Angelina Jolie; sofrendo um mal que a faz ter memórias fragmentadas e inclusive atacar os seus, carece de maior tempo de tela ou mesmo de flashback específico para compreender nuances da deidade guerreira ou como sua relação com Gilgamesh se estratificou. O mesmo poderia se dizer sobre Druid especialmente em se tratando que o poder dele, de controlar mentes, é muito atrativo e parece que em determinado momento do terceiro ato o personagem é simplesmente relegado a uma certa insignificância.

Eternos (2021)
© Marvel Studios, Disney Entertainment

Criaturas e criador, no caso Arishem, o celestial supremo, tem um embate literal e filosófico sobre os rumos do universo que nos leva a conclusão desse filme, com as surpresas de sempre nas cenas pós créditos; ainda apontando para um “não foi dessa vez” na introdução de um novo personagem: o Cavaleiro Negro Dane Whitman (Kit Harrington), que namora Sersi mas praticamente entra mudo e sai calado do filme. Mas quais os caminhos que Eternos vai percorrendo, o que aponta e o que deixa como pistas? Que menos é mais ou no caso, que mais pode ser mais se há um cuidado na artesania do todo.

Dos jardins suspensos da Babilônia a Londres dos dias de hoje, o sentimentos que Eternos nos traz é um “foi quase” pois há um descompasso entre algumas sequências, cenas e passagens que inspiram a autoralidade e interferência de Zhao, um cuidado com seus atores e com todos os aspectos da direção e outros momentos que parecem terceirizados, produzidos em dezenas de laboratórios de efeitos, ilhas e estúdios de finalização. Mesmo na tentativa de dirimir as falhas de percurso e retomar o prumo na conclusão do arco dramático do filme, ela escolhe por metáforas fáceis para alicerçar as decisões de Ikarus e Sersi, por exemplo. E por outro lado, descuida do que poderia ser um trágico embate entre Thena e Kro, o deviante que adquiriu consciência e com quem ela tem história – mas há ao menos uma fala que ele dirigir a guerreira que vale a menção: “somos meras armas mortais de Arimesh”.

Uma sensação agridoce é a que passa Eternos. Se Zhao não conseguiu concluir a missão de dirigir um filme com tensões e distensões tão demarcadas e necessidade de seguir uma fórmula clássica, mesmo que com algumas subversões (como os bem vindos planos contemplativos) ou se teve dificuldades em assumir o processo dentro da Marvel como um todo, como fez Cate Shortland em Viúva Negra ou Patty Jenkins no primeiro filme de Mulher Maravilha, é impreciso afirmar. Mas o resultado é que Eternos não parece um filme pensado em sua completude, ficando longe da beleza, harmonia, grandiosidade e impacto da Unimente que agregou todos os poderes dos Eternos para impedir o despertar.

Um grande momento
Encontrando Druig

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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