(Ferrugem, BRA, 2018)
Drama
Direção: Aly Muritiba
Elenco: Tifanny Dopke, Giovanni de Lorenzi, Enrique Diaz, Clarissa Kiste, Igor Augustho, Duda Azevedo, Pedro Inoue
Roteiro: Aly Muritiba, Jessica Candal
Duração: 100 min.
Nota: 7 ★★★★★★★☆☆☆

Com a emergência dos temas referentes às minorias sociais no cinema e outros meios culturais, quando nos deparamos com um filme que descreve conflitos na classe média, começamos com um pé atrás, com alguma hesitação para validar sua relevância. Esse receio é positivo, para que não nos esqueçamos das histórias que se desenvolvem nas periferias e precisam ser contadas por vozes desses locais.

Diante desse aviso inicial, começamos a pensar sobre Ferrugem, que traz à baila temas modernos como a exposição virtual da intimidade das mulheres. A história se inicia em Tati (a estreante Tifanny Dopke), aluna do segundo ano do ensino médio, que se envolve afetivamente com Renet (Giovanni De Lorenzi, de Deus Salve o Rei) durante uma viagem da escola. Esse acontecimento seria banal, mas o filme mostra que seus personagens têm mais camadas. Recentemente, Tati teve um término de namoro vergonhoso, enquanto Renet traz pendências desconhecidas com sua mãe.

Durante essa viagem escolar, Tati perde seu telefone celular, um incidente que terá grandes repercussões. Dentro do aparelho havia um vídeo íntimo da jovem com seu ex-namorado, que é vazado nas redes sociais do colégio. Com isso, escancara-se no filme o tema do chamado revenge porn, quando as mulheres são expostas de forma semelhante à experimentada por Tati.

Assim, Ferrugem sai ileso daquela baliza que citamos no início do texto. O roteiro traz um assunto mais do que necessário à contemporaneidade, o que justifica observarmos mais uma vez o contexto da classe média branca heteronormativa. O longa não tem personagens gays, não tem personagens negros, pela simples razão de que essas figuras são realmente invisíveis no meio social no qual o enredo se desenvolve, especialmente em Curitiba.

Ainda nesse tópico de representatividade, é preciso fazer uma constatação. Ferrugem é dirigido por Aly Muritiba (Para Minha Amada Morta), um cineasta homem cis diante de assuntos mais ligados à feminilidade. Consciente socialmente, Aly se alia à roteirista Jessica Candal (Horizonte) para que a voz feminina ganhe autenticidade. A dupla consegue transpor à tela o ambiente escolar contemporâneo. Com isso, Ferrugem é imperativo para professores, alunos e seus familiares, para que fiquemos atentos a como lidar com uma mazela que vitima nossa juventude.

Toda essa temática e discussão estão ali, mas o mais importante é o pacote no qual são entregues. Os conflitos internos dos personagens e o mistério sobre a identidade de quem vazou o vídeo engajam o espectador a se envolver com a história. Assim, o debate não se perde no desinteresse das plateias em um filme mais hermético.

Por outro lado, a tática do roteiro é arriscada, pois os mistérios da história muitas vezes se sustentem pelo silêncio desconfortável dos personagens, ou por intransigências em seu caráter. Essa faceta é a prova de que figuras falhas desfilam pela tela. No entanto, caminhar por essa vereda coloca em xeque a simpatia do espectador. Em alguns momentos durante a sessão de Ferrugem, temos a vontade de gritar com os personagens, tão absortos em seus dramas internos, que alongam a resolução da trama de forma irritante.

Com tudo isso, o longa vencedor do último Festival de Gramado tem um saldo positivo, tanto como audiovisual quanto como objeto social. Há avanços inegáveis em teimosias do chamado cinema autoral, mas alguns vícios permanecem.

Um Grande Momento:
Entrar na escola sem saber o que aconteceu

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