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Foro Íntimo

(Foro Íntimo, BRA, 2017)
Drama
Direção: Ricardo Mehedff
Elenco: Gustavo Werneck, Jefferson da Fonseca, Beatriz França, Léo Quintão, Alexandre Cioletti, Alex Mehedff, Edu Costa, Andre Senna
Roteiro: Guilherme Lessa, Ricardo Mehedff
Duração: 74 min.
Nota: 2 ★★☆☆☆☆☆☆☆☆

Foro íntimo vai buscar eventos reais para construir a sua trama e ficcionaliza a história de vários juízes, lembrando, em especial, o juiz federal Odilon de Oliveira. Ameaçado pelo narcotráfico depois de dezenas de condenações, ele chegou a morar em seu escritório e passou mais de 18 anos sob escolta armada da Polícia Federal.

Em seu longa de estreia, o diretor Ricardo Mehedff parece interessado em transformar em imagens e sons o aprisionamento psicológico daquele que abdicou de sua vida por causa da Justiça. A abordagem primeira, ideologicamente falando, é complicada, assim como a execução imagética da mesma.

Nesse Brasil sem salvação e em preto e branco de Mehedff, aquele único homem está pagando a pena por fazer o seu trabalho, por sua honestidade. A solidão e a claustrofobia são reafirmadas por um sem número de efeitos e enquadramentos. Entre outros, muitas linhas retas, contraluz, planos-detalhes e uma trilha marcada por sons graves tentam dar conta do sentimento, mas em seu exagero cansam e distraem.

Se de um lado há muita literalidade no que se vê (ele passa mal, a médica chega, plano-detalhe da braçadeira do aparelho de pressão, do estetoscópio no ouvido da médica), metáforas com a das formigas vêm para aproximar da sensação de confinamento e perda da lucidez, ainda que nem sempre filmadas da maneira mais eficiente.

O diretor escolhe como ritmo a lentidão observacional, não favorecendo as interpretações e nem sendo favorecido por elas. Se a ideia era fazer com que os sentimentos de Gustavo fossem destacados pelo marasmo, o efeito é inverso. Além disso, não há regularidade nas inserções de outras sequências, como demonstra toda a cena após o aparecimento da foto de Clara no chão.

Foro Íntimo está entre a experiência de linguagem – num flerte com o expressionismo – e uma inconsciente prepotência. Há muita vontade de se demonstrar algo, mas falta uma noção mais precisa do que tantos desfoques, planos subjetivos, mudança radical de janela e outros efeitos podem representar juntos. Na profusão, até surgem lampejos de uma intenção, mas falta um caminho real para qualquer especificação.

Indo além da estética, o desenvolvimento de Gustavo também tem suas questões. Uma cena específica traduz o desconforto ao acompanhar um dia na jornada desse “herói”. Antes de comer, ele junta as mãos e se prepara para uma oração. A associação explícita confere ao filme um determinismo que nunca é bem-vindo. Percebe-se a intenção de demonstrar a ambiguidade do personagem, mas o filme não é suficiente para construí-la. O que fica é: Gustavo, acompanhado por Deus, deixou tudo para cuidar de seu país.

Sem dúvida, essa determinação ideológica é o que mais afasta no primeiro longa de Mehedff. Há uma superposição do juiz diante da instituição, uma glorificação do humano. Justamente quando o Brasil passa por uma intensa onda de ataque institucional, onde o Estado de Direito se arrasta entre o que sobrou depois de um bombardeio de desrespeitos e já se percebeu o que heróis em nome de um poder podem causar, Foro Íntimo vem, mesmo que de maneira não consciente, reafirmar uma onda que contraria a própria democracia.

Um Grande Momento:
As primeiras cenas, que expõem a arquitetura dura.

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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