Crítica | Cinema

Fortaleza Hotel

Sozinhas, juntas

(Fortaleza Hotel, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Armando Praça
  • Roteiro: Isadora Rodrigues, Pedro Cândido
  • Elenco: Clébia Sousa, Lee Young-Lan, Demick Lopes, Larissa Góes, Ana Marlene e Vanderlei Bernardino
  • Duração: 77 minutos

Do you know brazilian music?”, pergunta uma Pilar embriagada a uma também embriagada sul-coreana Shin. Em seguida, ela coloca um Mastruz com Leite para tocar, e as duas bêbadas dançam o forró juntas. 

No mais novo filme de Armando Praça (de Greta), as duas mulheres, de vidas completamente distintas, têm seus caminhos entrelaçados a partir da morte do marido de Shin (interpretada por Lee Young-Lan), que vivia no Brasil a trabalho e se suicidou depois de se envolver em algum tipo de corrupção corporativa, mas as circunstâncias da morte são mais obscuras que isso. Shin, então, é forçada a vir ao país para que possa levar o corpo do marido de volta à Coreia. Nesse meio tempo, ela fica hospedada no meia-boca Fortaleza Hotel, onde Pilar (interpretada por Clébia Sousa, de Bacurau, O som ao redor, Tatuagem) trabalha como camareira.

Fortaleza Hotel
Jorge Silvestre

O roteiro amarrado de Isadora Rodrigues e Pedro Cândido nos revela, de cara, que Pilar tem planos de deixar o país e viver ilegalmente em Dublin, uma viagem que financiou em longas parcelas. Trabalhadora e moradora de uma periferia de Fortaleza, Pilar tem uma filha que nasceu quando tinha 13 anos, não se acha uma boa mãe, e, assim como tantos brasileiros, não vê futuro por aqui. Já terminou um curso de inglês e se prepara para começar um novo ciclo em sua vida. Shin, por sua vez, está em um momento inverso: o fechamento de um ciclo, o falecimento de um amor, o luto. A coreana descobre que a camareira sabe falar inglês e pede sua ajuda para se locomover por Fortaleza, e lidar com os trâmites burocráticos da morte. 

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A cada minuto que passa, o filme ganha tonalidades mais enérgicas e se intensifica  ao ponto de as duas mulheres se verem imersas em uma trama envolvente que se passa na Fortaleza fria e metálica construída por Praça. Destaque para a fotografia de Heloísa Passos, que capta muito bem os momentos opostos (mas quase complementares) vividos pelas protagonistas. E que atrizes! Fortaleza Hotel é o retrato elegante, charmoso e sensível do encontro solitário de duas mulheres que estão, cada uma a seu modo, perdidas em uma cidade alheia às suas dores. O plano final é uma das coisas mais incríveis que vi nos últimos meses, e o cinema brasileiro continua segurando as pontas.

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Marcus Benjamin Figueredo

Marcus Benjamin Figueredo é corintiano, cineasta e jornalista, filho da UnB. Também é pesquisador e já atuou como montador de clipes musicais, produtor, curador e membro do júri em festivais de cinema universitário e roteiro. Gosta de sinuca.
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