Crítica | Festival

Fuga

Lugar de escuta

(Flee, DNK, FRA, SWE, NOR, EUA, SLO, EST, ESP, ITA, FIN, 2021)
Nota  
  • Gênero: Animação, Documentário
  • Direção: Jonas Poher Rasmussen
  • Roteiro: Jonas Poher Rasmussen
  • Duração: 83 minutos

Acessar o passado, reconhecer-se, assumir-se, tomar para si a sua história e contá-la do jeito que bem entender. Fuga não é apenas o filme de Jonas Poher Rasmussen sobre seu amigo afegão refugiado, é a libertação de homem que passou a vida escondendo a sua verdade, fugindo de sua própria história. Sob o pseudônimo Amin Nawabi e sem a exposição de sua imagem, o documentado, pela primeira vez em sua vida, parece ir aos poucos se desvencilhando de uma desconfiança que ainda o acompanha.

Há vários fatores que auxiliam Amin nessa jornada rumo a suas origens e à coragem para expor suas cicatrizes. A mais evidente delas é a proteção que a animação lhe traz. Rasmussen constrói uma representação carismática, mas que não deixa de transmitir o desconforto inicial e a gradual confiança que o representado vai adquirindo no diálogo e no ambiente para alcançar passagens cada vez mais íntimas. Nesse jogo do real e do simulado, há o encontro com a liberdade: de ser e de criar.

Muito do discurso de Amin em Fuga parece transbordar as fronteiras do possível. Sua narrativa, entrecortada por passagens comuns e facilmente identificáveis e outras nem tanto. Mas sabemos que a memória é aquilo que fazemos dela e como será uma memória se resolvemos não mais acessá-la? Escondê-la de tudo e de todos? O documentário de Rasmussen faz pensar o quanto é direito de Amin criar em sua história, o quanto é direito nosso acreditar que aquilo possa ser criação e o quanto há de involuntário em uma possível criação.

Fuga fala de várias questões dolorosas e profundas de pertencimento, identificação, sexualidade e aceitação. Coisa que ultrapassam inclusive as fronteiras do país que ele abandonou depois que que a guerra jihadista o obrigou a fazê-lo e a xenofobia o fez uma pessoa sem lugar de conforto. Amin encontrou na introversão sua segurança e quando Rasmussen consegue de certa maneira, e conosco como testemunha, ir quebrando essa concha, não há como não se envolver e emocionar.

Contando com flashes de contextualizações, o filme dedica-se quase exclusivamente a seu documentado. É dele o espaço para falar, para colocar para fora tudo aquilo que por muito tempo teve medo de falar, de expor. E é a sua hora de ser ouvido. Fuga é sobre a possibilidade e a segurança de acessar o passado e as próprias feridas, revivê-las em um lugar onde elas não mais doam e sobre acolher aquele que tem a coragem de fazer isso.

Um grande momento
A mãe

[Sundance Film Festival 2021]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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