Crítica | Festival

Madalena

Tristes retratos de um Brasil

(Madalena, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Madiano Marcheti
  • Roteiro: Madiano Marcheti, Thiago Gallego, Thiago Coelho, Thiago Ortman
  • Elenco: Natália Mazarim, Rafael de Bona, Pamella Yule
  • Duração: 85 minutos

Existem duas formas de absorver ‘Madalena’ e provavelmente ambas são acertadas. A que salta aos olhos mais rapidamente é o fato de que o Brasil não filma o Brasil, na maior parte das vezes, e a estreia de Madiano Marcheti no cinema vem tentar reparar essa ausência das profundezas do país, que vemos com uma disponibilidade natural rara. O Sudeste e o Nordeste são regiões mais representadas nas telas, mas Mato Grosso do Sul tem pouca representatividade, e agora essa região tão pouco acessada chegou na competição principal de um dos maiores festivais do mundo sem dever nada a ninguém.

Descentralizar imagens num país intercontinental é fundamental para que o próprio país se reconheça nas telas e reorganize seus cânones imagéticos, que não podem ser dominados por uma ou duas regiões. Quando Marcheti coloca em cena três representações da juventude local, em três recortes absolutamente  distintos em representação e ressignificação de olhar, ele sutilmente abre a segunda camada do seu filme; o cinema nacional também precisa aprender a descentralizar corpos, retirar a hegemonia dos lugares que já tem voz própria para naturalizar espaços e vivẽncias que choquem com a realidade massificada. 

Colocar em cena uma juventude tão pouco representada, com dinâmicas particulares, um outro lugar de possibilidades narrativas, é por si só uma tarefa feliz do filme; que esse lugar seja revestido de muita sutileza para falar de ocupação no mercado de trabalho, orientação sexual, hábitos e relacionamentos familiares, construção de laços de afeto despadronizados, são acessados pelo roteiro escrito a oitos mãos (além de Marcheti, três Thiagos – Coelho, Gallego e Ortman) de maneira orgânica e muito suave, sem pressionar para lado algum, quase como testemunha de planos reais flagrados por um observador discreto. 

Mesmo a ausência que une os pólos do filme se apresenta de maneira sensível, como um elo que se manifesta de diferentes aspectos – uma busca, um assombro, uma saudade. Passeiam por cada uma dessas divisões as nuances de cada representação, de suas idiossincrasias particulares e os tratos com Madalena, que não está em cena mas nunca deixa de se fazer presente. É como se essa perda realçasse essas histórias sem nunca explorá-las, protegê-las ou explicitá-las; sabemos de cada passagem o que é necessário para que a espinha dorsal se mantenha firme e sustente a narrativa.

Há uma observação atmosférica interessante nas escolhas que perpassam as histórias do longa. Bianca, uma jovem mulher trans, é somente filmada sob a luz do sol, em passagens sempre iluminadas e vibrantes; Luziane trabalha nos dois registros, tanto em passagens diurnas quanto noturnas, até porque trabalha como ‘host’ de uma boate; Cristiano, por sua vez, apesar de alguns breves momentos solares, é um jovem cuja sombra está intrínseca em si, e a noite que o acompanha faz a metade do serviço de deslocar seu pensamento. Essa acaba também sendo a forma como o trio tem acesso a Madalena, de maneira leve, moderada entre duas secções ou absolutamente pesada. 

Marcheti não se furta em flertar também com as possibilidades fantasmagóricas em sua estreia, indo do suspense à ficção científica apenas com criação de planos, movimentação de câmeras e regulação de intensidades de luz, em fotografia impressionante de Tiago Rios e Guilherme Tostes (de ‘Traga-me a Cabeça de Carmen M.’). O filme parece se deixar seduzir por essas possibilidades etéreas que a figura de Madalena adquire vez por outra, ora encantando ora assustando os personagens, porém sempre manipulando de longe esse trio de acordo com seu envolvimento emocional com essa perda.

O trabalho naturalista capturado por todo o talentoso elenco local é outro ponto que transporta a experiência de ‘Madalena’ para um lugar especial dentro da nossa filmografia, retirando qualquer possibilidade de associar os personagens a trabalhos anteriores e os colocando em posição semi documental, como também é a forma com que as câmeras se aproximam de cada um de seus atores em cena, cada um deles livres de lidar com qualquer mínima impressão de panfleto narrativo, apenas a denúncia que perpassa toda a produção e se encerra com um mergulho quase como se fosse uma oração.

Um grande momento:

À noite na plantação.

[Festival Internacional de Cinema de Roterdã]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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