Crítica | Outras metragens

House 4

Vidas em espera

(Haus 4, ALE, 2026)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Philipp Schaeffer
  • Roteiro: Philipp Schaeffer
  • Duração: 68 minutos

A câmera de Philipp Schaeffer não procura drama, espera que ele aconteça, ou que não aconteça, o que talvez seja mais incômodo. Ao invés de construir uma narrativa sobre transformação, em House 4, o acesso ao interior de um centro de detenção juvenil em Berlim observa aquilo que se repete.

Durante um ano, o filme acompanha jovens internos em sua rotina de trabalho, pátio e sessões de terapia. Esses fragmentos não são organizados em uma progressão clara. O tempo passa, as situações retornam com pequenas variações, e o que fica é a sensação de um sistema que funciona mais pela continuidade do que pela mudança.

Um dos principais eixos é o das sessões conduzidas pela terapeuta. Ali o filme se aproxima de alguma forma de interioridade, mas mesmo esse espaço é atravessado por ambiguidade. Os jovens falam sobre responsabilidade, empatia e futuro, com momentos de lucidez, mas também a impressão de que esse discurso pode não se sustentar fora dali. A própria ideia de reabilitação aparece como hipótese, nunca como certeza.

O que interessa a Schaeffer não é responder se o sistema funciona. House 4 mantém a pergunta com quem assiste ao filme. Ao evitar entrevistas diretas ou qualquer estrutura mais explicativa, o filme constrói um campo de observação em que o espectador precisa lidar com aquilo que vê sem mediação. A câmera registra comportamentos, hesitações e silêncios, e a partir daí deixa que as contradições apareçam.

Formalmente, essa escolha se traduz em um cinema de contenção, com planos longos e movimentos discretos. Há um rigor que não chama atenção para si, mas que mantém o interesse. A sensação é de tempo dilatado, como se o filme recusasse qualquer aceleração que pudesse sugerir transformação mais rápida do que a possível dentro daquele espaço.

Se a abordagem tem força, também produz um efeito específico. A repetição, que no início constrói um retrato preciso da rotina, aos poucos começa a esvaziar a expectativa de deslocamento. Mesmo que a dúvida sobre o impacto da instituição permaneça, House 4 acaba girando em torno das mesmas questões sem avançar sobre elas.

Ainda assim, o acúmulo de pequenos gestos, comentários soltos e a maneira como alguns jovens se posicionam diante do próprio futuro se sobrepõem. Em determinado momento, surge a percepção de que, para alguns deles, a prisão oferece uma forma de estabilidade que o mundo externo não garante. A frase aparece quase sem ênfase, mas reorganiza o que se viu até ali.

House 4 não dramatiza essa constatação, a deixa ali, como mais um elemento dentro de um sistema que continua operando. Jovens entram, jovens saem, sessões continuam e a rotina se mantém. O documentário termina como começou, observando. Ao recusar qualquer fechamento, devolve ao espectador a responsabilidade de lidar com um problema que o próprio filme sugere não ter solução.

Um grande momento
Se preparando para sair

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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