Crítica | Festival

Matapanki

Movido a caos

(Matapanki, CHI, 2026)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Diego Fuentes
  • Roteiro: Diego Fuentes
  • Elenco: Ramón Gálvez, Diego Bravo, Antonia McCarthy, Rosa Peñaloza, Rodrigo Lisboa
  • Duração: 71 minutos

A primeira coisa que Matapanki faz é recusar qualquer ideia de heroísmo como ele costuma aparecer no cinema. O protagonista não é escolhido, preparado ou digno, ele simplesmente bebe. E é a partir desse gesto banal, um gole de um coquetel improvisado de álcool, que o filme de Diego “Mapache” Fuentes reorganiza tudo ao redor.

Ricardo é um punk sem rumo, vivendo com a avó, cruzando a cidade entre festas, encontro com amigos e conflitos com a polícia. Quando descobre que a bebida lhe dá força sobre-humana, o que poderia ser origem de um arco clássico de ascensão se transforma em outra coisa. O filme não está interessado em construir um herói, mas em testar o que acontece quando poder e imaturidade se encontram. A primeira reação não é responsabilidade. É impulso. E o impulso tem consequências.

Essa lógica atravessa toda a narrativa. Matapanki pega a estrutura do cinema de super-herói e a desmonta a partir de dentro, substituindo disciplina por caos, moralidade por instinto e grandiosidade por improviso. O resultado é um filme que parece sempre prestes a sair do controle, como se cada decisão narrativa fosse tomada no calor do momento. A política entra nesse fluxo não como discurso organizado, mas como explosão, um comentário direto e irônico sobre poder, colonização e violência estatal.

A estética acompanha o gesto. Filmado majoritariamente em preto e branco, com intervenções pontuais de cor que lembram grafismos de HQ, o filme constrói uma imagem que parece ao mesmo tempo pensada e improvisada. A textura granulada, o uso assumido de efeitos simples e o desenho de produção que parece montado com o que havia à mão criam um universo coerente com a energia punk que atravessa tudo. Nada ali tenta parecer polido.

Essa escolha sustenta o filme, principalmente na primeira metade, quando a descoberta desse poder e suas consequências ainda produzem surpresa. Há um prazer evidente na forma como o filme trata situações absurdas, mistura humor, violência e comentário político sem se preocupar em equilibrar tons. Como a música punk, ele funciona melhor enquanto acelera, enquanto está expandindo suas possibilidades.

Essa lógica de excesso não se esgota ao longo da narrativa. O longa insiste nela como princípio, mantendo o caos como motor constante e não como recurso pontual. Em vez de buscar variação ou contenção, Matapanki continua expandindo suas situações, acumulando energia e levando suas próprias regras até o limite. O efeito não é de desgaste, mas de coerência interna. O filme entende que sua força está justamente nessa recusa em se organizar e decide sustentar essa desordem até o fim.

Não há como negar a potência do que se vê. Matapanki não quer reorganizar o mundo, quer expô-lo como desordem. E ao transformar um corpo desajustado em centro de uma crise que escala para algo maior, o filme encontra uma imagem bastante clara do seu próprio projeto: um herói que não resolve nada, apenas amplifica o que já estava em colapso.

Um grande momento
Tudo começa com um braço

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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