Crítica | Outras metragens

A Stable Marriage

Expectativa x realidade

(A Stable Marriage, EUA, 2026)
Nota  
  • Gênero: Ficção
  • Direção: Josephine Decker
  • Roteiro: Josephine Decker, Kristin Slaysman
  • Elenco: Kristin Slaysman, Oliver Harlan
  • Duração: 8 minutos

Em A Stable Marriage, Josephine Decker parte de uma ideia que parece boba, quase uma anedota íntima, para falar do descompasso entre aquilo que se deseja e aquilo que se consegue viver. O curta se constrói a partir da realização de uma fantasia sexual, mas não há qualquer interesse em tratá-la como catarse ou libertação. O que surge é um território estranho, onde o desejo, quando concretizado, deixa de ser confortável e passa a exigir negociação com o outro e com o próprio corpo.

O que mais chama atenção é como o filme recusa qualquer organização clássica dessa experiência. Ele apenas acontece. Não há preocupação com motivações ou com um arco dramático evidente. Decker prefere trabalhar com a situação mais pela sensação que provoca do que pela progressão narrativa. Essa escolha aproxima A Stable Marriage de um cinema em que o entendimento vem menos da lógica e mais da percepção.

A encenação acompanha esse movimento com bastante precisão. O corpo ocupa o centro da imagem de forma insistente, mas nunca idealizada. Há uma proximidade constante que não gera exatamente intimidade, e sim um leve desconforto, como se os personagens estivessem sempre um pouco fora do lugar que imaginavam ocupar. A fantasia, quando ganha forma, revela suas imperfeições. O toque é estranho, o tempo não corresponde, a presença do outro impõe limites que a imaginação ignorava.

Esse jogo entre expectativa e realidade é atravessado por aquele tipo de humor que surge do próprio constrangimento das situações. Não há piadas evidentes, mas há uma percepção clara do absurdo envolvido na tentativa de tornar o desejo realizável. O filme entende e joga com a falta de jeito, e é nesse desajuste que encontra sua graça.

Ao mesmo tempo, o curta estabelece rapidamente sua proposta e circula em torno dela sem buscar grandes deslocamentos. Ainda que se chegue ao gesto que leva essa experiência para outro nível, desestabilizando ainda mais aquilo que já está colocado, a repetição das sensações, ainda que coerente com a ideia central, reduz um pouco o impacto ao longo do tempo.

Mas o que fica é a precisão do olhar. A Stable Marriage, com seu trocadilho no título, fala de relacionamentos no tempo e de tentativa de manutenção. Ele observa o momento em que o desejo deixa de ser imaginação e passa a existir de verdade, carregando consigo todas as suas falhas. É nesse intervalo, entre o que se idealiza e o que se vive, que o filme encontra sua forma e faz a sua provocação.

Um grande momento
Chegando em casa

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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