Crítica | Festival

The Peril at Pincer Point

Organizando para desorganizar

(The Peril at Pincer Point, GBR, 2026)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Jake Kuhn, Noah Stratton-Twine
  • Roteiro: Jake Kuhn, Noah Stratton-Twine
  • Elenco: Jack Redmayne, Alyth Ross, Os Leanse, Mike Mackenzie, Dashiell Upton, Jason Hogan, Mat Wright, Noah Stratton-Twine, Isobel Laidler, Oliver Woolf
  • Duração: 83 minutos

É muito fácil de envolver com a molecagem caprichada de The Peril at Pincer Point, um filme que sabe o que está fazendo em termos de forma, mas decide o tempo todo sabotar qualquer possibilidade de elegância. A história de um técnico de som enviado a uma ilha para capturar um ruído específico rapidamente se transforma num mergulho num universo de lendas marítimas, personagens deslocados e situações que parecem existir apenas pelo prazer do desvio.

O ponto de partida é simples, quase banal, e isso importa. Porque o filme constrói sua identidade justamente na fricção entre essa base reconhecível e o modo como ela é constantemente desorganizada. O protagonista, com poderes inesperados, chega à ilha com uma tarefa técnica, quase burocrática, e encontra um espaço onde a lógica não se sustenta por muito tempo. O som que ele busca passa a guiar o filme para territórios cada vez mais estranhos.

O que mais chama atenção é o cuidado formal. Há uma inventividade estética evidente, especialmente no trabalho sonoro, que não apenas acompanha a imagem, mas a desestabiliza. Ruídos, ecos e interferências criam uma sensação de deslocamento constante, como se o espaço estivesse sempre prestes a se reorganizar. A imagem acompanha esse movimento. Enquadramentos pouco convencionais, texturas que remetem a um cinema mais artesanal e o 4:3 constroem um universo visual bastante específico. Esse rigor, porém, nunca se transforma em solenidade.

The Peril at Pincer Point é deliberadamente avacalhado. Os diretores Jake Kuhn e Noah Stratton-Twine assumem o absurdo, flertam com o nonsense e organizam sua narrativa a partir de episódios interessados em testar limites. Há uma energia inventiva muito clara, uma disposição para experimentar sem a obrigação de se justificar. O humor e a estranheza funcionam aqui como linguagem, com uma comicidade que surge do próprio excesso, da recusa em estabilizar qualquer tom.

Essa escolha sustenta boa parte do filme, especialmente em sua primeira parte, quando a sensação de descoberta ainda está ativa. Cada nova situação amplia o campo de possibilidades, e o espectador é levado por essa lógica errática, mais próxima de uma deriva do que de uma narrativa tradicional. Com o tempo, porém, essa estratégia começa a se repetir. A fragmentação que no início parecia livre passa a operar dentro de um padrão. O filme continua estranho, mas já não surpreende tanto assim. A sensação é de que ele encontra rapidamente sua forma e passa a girar em torno dela, sem necessariamente aprofundar o que propõe.

Ainda assim, o que permanece é essa tensão curiosa entre controle e descontrole. The Peril at Pincer Point é um filme tecnicamente consciente, que entende muito bem o que está fazendo, mas escolhe parecer desajustado, existindo justamente nessa contradição. No fim, o longa se sustenta menos pela narrativa e mais pela experiência que propõe. Um ótimo exemplo de um cinema que parece interessado em testar até onde pode ir antes de perder o equilíbrio e que, ao fazer isso, encontra um lugar próprio, ainda que irregular, entre a invenção formal e o prazer de bagunçar tudo.

Um grande momento
Encontrando Marina

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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