Crítica | Outras metragens

Praying Mantis

Canibalismo sexual

(Praying Mantis, HKG, TPE, 2025)
Nota  
  • Gênero: Animação
  • Direção: Joe Hsieh, Yonfan
  • Roteiro: Yonfan, Joe Hsieh
  • Duração: 18 minutos

A mulher de Praying Mantis não seduz, caça. O gesto pode até ser parecido, mas o sentido é diferente. No curta de Joe Hsieh e Yonfan, o desejo faz parter de uma estratégia de sobrevivência. Cada aproximação é calculada, cada toque já antecipa o que virá depois.

A narrativa acompanha essa figura que circula pela noite, atraindo homens para dentro de um ciclo que mistura erotismo e violência. O ponto de partida é direto, quase arquetípico, e dialoga com o comportamento do louva-a-deus, inseto que dá nome ao filme, em que a fêmea devora o macho após o acasalamento. Aqui, a curiosidade biológica passa a funcionar como inversão simbólica de uma lógica histórica, deslocando o eixo da violência para um outro corpo.

O que o filme faz com isso, para além de um exercício de choque, é um trabalho de tensão. A estética desenhada à mão constrói um universo onde beleza e ameaça coexistem o tempo todo. Há um cuidado evidente com textura, com luz, com a maneira como os corpos são enquadrados. A imagem nunca é apenas sedutora nem apenas agressiva. Ela sustenta esse estado intermediário, em que o fascínio já contém o perigo.

Essa construção ganha outra dimensão quando o filme aproxima essa violência da ideia de maternidade. O gesto de devorar deixa de ser punição ou vingança e passa a ser necessidade. A narrativa sugere que esse corpo feminino não age por escolha, mas por uma lógica de sobrevivência e provimento. A relação entre criação e destruição se embaralha. Gerar vida implica consumir outra.

Há algo de político por trás do que se vê, ainda que o filme não organize isso como discurso. Em uma estrutura patriarcal, ao inverter a dinâmica tradicional de poder entre homens e mulheres, ele expõe a naturalização de uma violência que, no mundo real, costuma operar em sentido oposto. O horror surge menos da ação em si e mais do reconhecimento de que aquela lógica já existe, apenas redistribuída.

Praying Mantis, porém, funciona melhor quando se mantém nesse equilíbrio entre sedução e ameaça, entre forma elegante e impulso brutal. É nesse espaço que encontra sua força, transformando o corpo em campo de disputa e o desejo em território instável.

Um grande momento
Se revelando

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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