Crítica | Outras metragens

Curtos retratos do aquecimento

A New Inferno, Una nave fragil e as formas do caos

O planeta caminha a passos rápidos para a inabitabilidade. Centro de dois curtas apresentados no SXSW 2026, o calor deixa de ser cenário sensorial e para ditar tudo o que acontece. Em A New Inferno, ele cruza a cidade como uma força imediata, impondo urgência, pressionando decisões e colapsando corpos em tempo real. Em Una nave fragil, ele se infiltra de maneira mais silenciosa, contaminando o cotidiano aos poucos, como se o mundo – que ainda funciona – não oferecesse garantia alguma de continuidade. Entre um e outro, encontra-se um mesmo território: o de uma realidade que vai se revelando. Não rompe de uma vez, mas se desgasta até se tornar insustentável.

No curta de Nita Blum-Reddick e Jonathan Pickett, a experiência é construída a partir do fluxo. Paramédicos se deslocam por Phoenix durante uma onda de calor extremo, respondendo a chamados que nunca cessam. O filme se organiza nessa repetição insistente, alternando treinamento, atendimento e deslocamento, criando uma espécie de thriller sufocante. A tensão não vem de um evento central, mas da percepção de que não há intervalo possível. Cada novo caso reafirma o anterior e prepara o próximo, num ciclo sem fim.

Já em Una nave fragil, de Samuel Díaz Fernández, o movimento é outro. A narrativa acompanha uma família em Austin envolvida em um projeto comunitário de mapeamento térmico, e o que se constrói ali é menos urgência e mais permanência. O calor não explode, ele permanece. As conversas, os deslocamentos, os pequenos gestos cotidianos passam a carregar um peso que antes não existia. O filme observa como a vida continua, mesmo quando as condições que a sustentam começam a falhar.

Os dois trabalhos se encontram justamente nessa diferença de escala. A New Inferno registra o momento em que o sistema já está no limite, operando sob pressão constante, tentando responder a uma crise que parece sempre um passo à frente. Una nave fragil observa o que vem antes, ou talvez o que vem durante, quando ainda há tempo para medir, registrar, compartilhar dados, criar pequenas estratégias de adaptação. Em um, a resposta é imediata. No outro, ela ainda tenta ser pensada.

Formalmente, essa distinção se traduz em abordagens distintas. O primeiro aposta na imersão direta, com a câmera próxima, o som abafado e o ritmo contínuo que constroem uma experiência física, em que o espectador sente o desgaste junto com os personagens. O segundo trabalha com uma proximidade mais contemplativa, permitindo que o espaço e o tempo se estendam, que o desconforto se instale sem precisar de aceleração. O calor está em ambos, mas sua manifestação muda. Em um, ele pressiona. No outro, ele penetra.

O que os une é a recusa em transformar essa crise em espetáculo. Nenhum dos dois filmes recorre a imagens grandiosas de destruição. O que se vê são corpos cansados, conversas atravessadas por incerteza, sistemas que funcionam, mas no limite. A ideia de controle aparece, mas sempre frágil. Medir o calor, resfriar um corpo, registrar dados. São gestos que tentam organizar o caos, ainda que o próprio filme sugira que esse controle é temporário.

Ao final, o que permanece não é uma conclusão, mas uma sensação compartilhada. Em A New Inferno, ela vem da urgência, da repetição que não permite descanso. Em Una nave fragil, da percepção de que o desgaste já está acontecendo. Juntos, os dois filmes desenham um mesmo cenário: um mundo que não colapsa de uma vez, mas que vai, aos poucos, deixando de ser viável para aqueles que vivem nele.

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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