Crítica | Festival

Bagworm

Pobre e podre perseguido

(Bagworm, EUA, 2026)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Oliver Bernsen
  • Roteiro: Henry Bernsen
  • Elenco: Peter Falls, Michelle Ortiz, Robbie Arnett, Corbin Bernsen, Stephen Borrello, Jessy Morner-Ritt, Sydney Winbush, Francesca Galassi
  • Duração: 96 minutos

É sempre incômodo acompanhar um personagem que nunca percebe o próprio ridículo. Bagworm, de Oliver Bernsen, se aproveita desse desconforto. A história é a de Carroll, um vendedor fracassado que, após um acidente doméstico, passa a ser consumido por uma doença que parece crescer junto com sua paranoia. Mais do que exatamente sobre o corpo, fala de um sujeito que já estava em decomposição antes mesmo da infecção começar.

O filme acompanha a espiral de péssimas ações e consequências com uma insistência quase cruel, ainda que merecida. Carroll vive num estado permanente de frustração, ressentido com o mundo, com as mulheres, com os amigos, com qualquer coisa que não corresponda à imagem inflada que ele tem de si. Ele fala demais, explica demais, acredita enxergar verdades que os outros não conseguem perceber. E, ao mesmo tempo, é incapaz de lidar com o básico. O problema nunca está fora, mas ele insiste que sim. 

Bagworm é, antes de tudo, um retrato de masculinidade frágil levada ao limite. Carroll não é apenas desagradável. Ele é o tipo de homem que transforma insegurança em agressividade, frustração em discurso e solidão em superioridade moral. Sua obsessão com o colapso do mundo e suas teorias funcionam menos como reflexão política e mais como sintoma. É mais fácil acreditar que o mundo está errado do que admitir a própria falência. 

O body horror entra como extensão desse processo. A doença que se instala no protagonista nunca é apenas física. O filme trabalha com uma ideia clássica do subgênero: a de que o corpo se rebela contra a mente, e essa rebelião pode ser consequência direta de um estado psicológico já deteriorado. A infecção cresce, apodrece, vaza, incomoda. E quanto mais Carroll tenta ignorá-la ou tratá-la com descaso, numa atitude característica da masculinidade, mais ela se impõe. O horror não está apenas nas imagens bizarras que o filme entrega com certa criatividade. Está na sensação de inevitabilidade. Como se aquele corpo estivesse apenas revelando algo já sabido. 

O espaço onde Carroll vive é quase uma extensão de seu estado mental, uma ruína suja, apertada e contaminada, que parece respirar junto com ele. Há momentos em que o filme se aproxima de um tipo de cinema mais sensorial, quase abstrato, em que o desconforto não vem apenas do que é mostrado, mas da atmosfera que se instala. E, ainda assim, o filme não abandona um certo humor.

Existe algo constrangedoramente cômico em muitas situações, especialmente na forma como Carroll interage com outras pessoas. Encontros desastrosos, conversas que desandam e tentativas de afirmação que se transformam em humilhação não suavizam a situação do personagem. Pelo contrário, o expõe ainda mais. Ele é, ao mesmo tempo, grotesco e reconhecível.

Muito disso funciona por causa da atuação de Peter Falls. Seu Carroll é um personagem difícil de acompanhar, alguém que frequentemente ultrapassa o limite da empatia, sem se transforma em caricatura. Falls sustenta a degradação física e emocional com consistência, fazendo com que o espectador permaneça ali, mesmo quando a vontade seria se afastar.

O problema é que, depois de uma construção eficiente dessa espiral, uma tensão que cresce à medida que corpo e mente entram em colapso, o filme parece perder parte de sua força quando se aproxima do fim. O desfecho chega fraco, deixando a sensação de que o filme acumulou energia demais e se apressou na hora de terminar, como se não soubesse exatamente o que fazer com aquilo que construiu. 

Isso, porém, não apaga o que há de mais interessante no percurso. Bagworm funciona bem como estudo de um sujeito que se destrói aos poucos, convencido de que está apenas reagindo ao mundo. No fim, o horror não está só na carne que se deteriora. Está na recusa em olhar para si mesmo.

Um grande momento
O prego

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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